Entrevista com Emílio Peixe (1)

Nasceu em terra de pescadores, mas foi na capital que atingiu maior dimensão. Ao título de Campeão do Mundo de sub 20, juntou o troféu de melhor jogador do torneio, à frente de nomes como Roberto Carlos, Luís Figo ou Rui Costa. Teve um papel preponderante no Sporting, mas foi no Porto que conquistou mais títulos. No final da carreira ainda houve tempo para uma passagem pelo Benfica. Hoje, Emílio Peixe abraça uma carreira como treinador e é o responsável máximo pela selecção nacional sub 16.
Em conversa com a Academia de Talentos, Emílio Peixe recordou o seu passado como jogador, falou do seu percurso como treinador e teve ainda tempo para contar algumas histórias bem curiosas.
DE LEÂO AO PEITO...
Quando é que começou a jogar futebol?
Comecei com dez anos no Grupo Desportivo "Os Nazarenos".
Como se deu a sua vinda para o Sporting?
Eu tinha apenas 13 anos e foi através de um senhor que já faleceu, que se chamava António Sales. Ele era sócio do Sporting e fazia prospecção indirecta, ou seja, como era simpatizante do clube, quando via algum miúdo que demonstrava jeito e qualidade acima da média, levava-o aos treinos de captação do Sporting. Foi isso que aconteceu comigo.
Quem foi o seu primeiro treinador no Sporting?
Foi o mister Carlos Pereira, que actualmente é adjunto do Paulo Bento no plantel principal.
Em que posição jogava nessa altura?
Comecei por jogar como médio ala direito, naquela altura explorava-se muito a velocidade dos jogadores, e como eu era bastante rápido comecei a desempenhar essa posição. Penso que não era o lugar ideal para as minhas características, e com o passar do tempo fui recuando no terreno até chegar a defesa central.
Dos jogadores que atingiram maior dimensão, quais é que foram os seus companheiros nas camadas jovens do Sporting?
Lembro-me de todos os meus companheiros, mas o Luís Figo, o Paulo Torres e o João Oliveira Pinto são os mais conhecidos do grande público.
Que títulos conquistou nas camadas jovens do Sporting?
Fui campeão Nacional no primeiro ano de Iniciados, numa final com o Porto disputada no Estádio do Fontelo em Viseu. Depois não consegui ganhar mais títulos nacionais, apenas fui vice campeão em duas ocasiões.
Como é natural da Nazaré, quando veio jogar para o Sporting, veio viver para Alvalade?
Sim, no entanto há uma história curiosa que antecede a minha vinda para o Sporting. Antes de me transferir para os leões, fui treinar ao Benfica através de um amigo meu. Nessa altura o treinador era o Sr. Mário Coluna, e ele fez força para que eu ficasse. O problema é que o Centro de Estágio estava cheio, e a solução era vir viver para uma pensão em Lisboa. Como era a primeira vez que tinha vindo à capital, nunca tinha visto tantos carros, aviões ou semáforos, achei que era uma mudança muito violenta para mim. Era um miúdo da província, que vinha de um meio mais rural, não estava habituado a este ritmo de vida, e como era uma mudança muito radical não aceitei.
Depois, passados uns tempos, vim treinar ao Sporting, o Centro de Estágio também estava cheio, mas arranjaram-me um cantinho. Meteram um colchão no chão e dormi lá três meses.
Diz-se que o Peixe tinha um cachecol do Benfica no seu quarto, quando vivia no Centro de Estágio do Sporting. É verdade?
É verdade (risos), mas isso tem uma explicação. Eu ia sempre ver os jogos quer do Benfica, quer do Sporting. Como jogavam sempre alternadamente em casa, ia sempre ver uma das partidas em cada fim-de-semana. Num desses encontros o Benfica ganhou 2-0 ou 3-1 ao Porto, já não me recordo e o Rui Águas marcou dois golos. Como tinha uns trocos na carteira comprei um cachecol do Benfica. Quando voltei para o quarto em Alvalade, esqueci-me de o guardar, ficou bem visível atrás da porta e no outro dia tive alguns problemas por causa disso. No entanto, tudo foi ultrapassado rapidamente.
Lembra-se de alguns dos seus companheiros de quarto, nos primeiros tempos no Sporting? Foram importantes para a sua adaptação?
Lembro-me de muitos. O Élio de Lagos, o Luís Brites de Albufeira, o Calção do Alentejo, o Miguel Simão que também chegou a ser internacional, o Cartaxo que era o meu afilhado e meu colega de quarto. Esses colegas foram aqueles com que convivi mais directamente, de uma forma mais íntima, mas outros também foram muito importantes na minha aprendizagem enquanto jogador.
Como foi a estreia com a camisola do Sporting?
Estreei-me no Barreiro, num jogo em que o Sporting defrontou o Farense para o Campeonato Nacional. Foi antes do Mundial de sub-20. Embora fosse pontualmente chamado a treinar com a equipa principal foi uma grande surpresa para mim.
O Luís Figo era considerado a maior estrela do Sporting. Sentia algum tipo de diferença nas exigências que lhe eram feitas?
Após o Mundial começou a existir uma maior pressão sobre todos, começou-se a falar mais em nós, isso aumentou a exigência, mas penso que até era positivo para melhorarmos.
Em 1994, o Sporting tinha um plantel relativamente jovem. Como reagiram ao acidente que vitimou o Cherbakov?
Como pode calcular foi muito complicado gerir essa situação. Tínhamos estado no jantar de despedida do mister Bobby Robson, e algumas horas depois viemos a saber do acidente. Foi dramático, muito complicado mesmo, contudo, tivemos o apoio do mister Carlos Queiroz que soube preparar-nos de modo a lidar bem com o acontecimento. E aos poucos tivemos a noção que a situação era irreversível e que não havia nada a fazer.
Ficou surpreendido com a substituição do mister Bobby Robson pelo professor Carlos Queiroz?
Na altura foi uma surpresa para nós, mas o resultado atingido na eliminatória com o Casino Salzburgo foi prejudicial. Tínhamos ganho por 2-0 em casa, tudo indicava que seriamos apurados e não fomos porque perdemos na Áustria. No Sporting as coisas funcionavam um pouco assim, os projectos eram decididos consoante os resultados, e foi esse factor que levou à saída do mister Bobby Robson. No entanto a vinda do professor Carlos Queiroz foi positiva, porque sabíamos que já conhecia a maior parte dos jogadores, reconhecia as capacidades de todos e que nos apoiava muito.
Que títulos conquistou ao serviço do Sporting?
Muito poucos. Apenas uma Taça de Portugal, e uma Supertaça, que foi decidida em Paris.
Naquele tempo o Sporting tinha sempre grandes equipas, mas não conseguia ganhar títulos. Consegue encontrar uma explicação para isso?
Consigo, é fácil. O Sporting tinha bons jogadores, mas nunca tinha grandes equipas. Onde ganhei títulos foi sempre onde havia grandes equipas. Os jogadores podiam não ser tão evoluídos tecnicamente, mas eram superiores noutros factores e noutras vertentes. Tinham uma mentalidade muito mais ganhadora, mais agressiva. A explicação é essa. A conclusão que chego é que para ganhar troféus é necessário existir uma grande força e coesão no grupo.
Aquando da sua renovação, o presidente Sousa Cintra revelou algumas dificuldades em renovar consigo, à semelhança do que aconteceu com o Figo. Alguns adeptos pensaram que o Peixe só pensava em dinheiro. O que se passou?
Não se ganhava assim tanto dinheiro. (risos). Mas o problema não foi esse. A questão que se punha é que o meu palmarés no Sporting, o meu passado recente era muito positivo. Era um jogador muito utilizado, nos últimos três anos tinha sido titularissimo, era uma presença constante na selecção A, e participei várias vezes em jogos de apuramento para os Campeonatos da Europa e do Mundo. Fazendo face a estes factores e ao meu desempenho, era natural que pedisse um aumento salarial aquando da renovação do contrato. Esse facto não foi atendido pelo presidente Sousa Cintra, mas o meu objectivo era continuar no Sporting, sempre disse isso ao Presidente e a todas as pessoas. Os tempos eram outros, tive que sair durante seis meses e quando voltei ao Sporting, tive o contrato que tinha pedido anteriormente.
Nessa altura os adeptos leoninos temiam uma retaliação da parte do Benfica por causa da transferência de Paulo Sousa e Pacheco para o Sporting. Existiu alguma possibilidade de ir para o Benfica?
Após esse episódio, todos os anos existiu a possibilidade de ir para o Benfica, mas sempre recusei, assumi um compromisso com o Sporting, e sou um homem de compromissos. Depois fui para o Sevilha, achei que não havia condições ajustadas à minha preponderância na Andaluzia, o clube também estava com problemas relacionados com os ordenados em atraso e outras situações ainda mais complicadas. Pedi para sair, voltei ao Sporting, depois de aceitar um convite do Sr. Pedro Santana Lopes. Ao longo dos anos honrei sempre os meus compromissos, houve muitas vezes a possibilidade de sair, mas nunca aceitei, só saí porque alguém achou por bem tirar-me de lá.
Foram sobretudo razões financeiras que o fizeram assinar pelo Sevilha?
Não, desde logo havia a necessidade de fazer face a alguns jogadores que tinham saído, casos do Balakov e do Figo, que tinham um trajecto semelhante ao meu. Não houve acordo, não satisfizeram as minhas exigências, surgiu a possibilidade de ir embora e sai. Nunca foi por questões financeiras, se as condições que na altura exigi tivesse sido atendidas, nunca teria saído. Depois de seis meses em Espanha, respeitaram o meu pedido e regressei ao clube que me formou enquanto jogador e homem.
Quando chegou ao Sevilha, o clube enfrentava graves problemas, relacionados com dívidas fiscais e com a possibilidade de descer de divisão?
O Sevilha já tinha sido despromovido quando lá cheguei juntamente com o Celta de Vigo. Penso que foi devido à falta de pagamento de algumas dívidas.
Como foram os tempos que passou em Sevilha?
Foram complicados. Saí de uma grande equipa como era o Sporting, e passado pouco tempo estava a competir numa II Divisão B. Foi difícil. Ainda para mais vinha de uma operação a uma pubalgia e ainda estava em recuperação. Mas depois tudo se resolveu e voltei para Portugal.
Esses factores que enumerou fizeram com que nunca se impusesse no Sevilha?
O meu pensamento era sempre focado para o dia a dia. Diariamente tinha como objectivo dar o meu melhor, aprender e evoluir cada vez mais. Nunca fiz projectos a longo prazo. E isso das pessoas dizerem que eu podia ter feito outro tipo de carreira é muito relativo, porque as contingências da própria vida levam-nos a escolher caminhos certos mas por vezes errados. Eu só me arrependo do que não fiz, porque tudo aquilo que efectuei foi com a consciência que estava a dar o meu melhor.
Acha que os sportinguistas podem ter ficado ressentidos com o facto de sair e voltar pouco tempo depois? Acha que encararam esse retorno como uma espécie de oportunismo ou traição?
Não, de maneira nenhuma. Não houve traição nem qualquer tipo de oportunismo. O que existiu foi uma incompatibilidade de vários interesses. Quando tive oportunidade de voltar para o único clube que tinha conhecido enquanto profissional, não hesitei.
O Peixe foi expulso algumas vezes na sua carreira. Acha que estava rotulado ou que havia algum estereótipo de ser um jogador violento, e por isso havia alguma intolerância?
Acho que tinha esse rótulo de jogador agressivo, mas para mim a violência não existe no futebol. Eu disputava cada lance como se fosse o último, era a minha característica. Ainda hoje sou um apaixonado pelo futebol, mas nunca coloquei em causa a integridade física de ninguém, nunca magoei um colega. Aliás, eu é que me lesionava. Fui quatro vezes operado, e duas dessas cirurgias foram causadas por entradas que sofri nos jogos. Portanto, sei que tinha o rótulo de jogador impetuoso e que nunca virava a cara à luta, mas o que acontecia é que por vezes chegava tarde aos lances, ou calculava mal o tempo de entrada, e por isso cometia faltas.
Esteve envolvido naquela confusão com o Caniggia, num célebre Sporting Vs Benfica? Lembra-se desse lance?
O que me lembro é que tive confrontos difíceis com vários jogadores e o Caniggia foi um deles. Ele costumava aparecer na zona onde eu estava, e normalmente havia combatividade e uma disputa muito grande. Não sei o que se passou na cabeça do Caniggia, ele veio por trás e empurrou-me. O árbitro era o Jorge Coroado e quando se apercebeu, expulsou o jogador.
Esse lance acabou por ser algo caricato, disseram que a expulsão foi injusta, e a partida esteve envolta em polémica?
Injusta não foi porque me empurrou, mas também já não me lembro muito bem.
Existem pessoas que dizem que o Sporting estragou o Peixe, por ter jogado muitas vezes a central, quando a sua posição era médio defensivo. Concorda?
Não. É sempre uma vantagem desempenhar mais que uma função no terreno. O que sinto e sentia naquela altura era que porventura podia render mais noutra posição, mas isso são factores que só são explicados por quem comanda e lidera. E se não somos treinados para lidar com essa realidade, não conseguimos tirar o máximo rendimento. Acho que não foi uma desvantagem, foi uma vantagem.
As sucessivas contratações do Paulo Sousa, do Pedro Martins, a permanência do Oceano, impediram que o Peixe pudesse jogar na sua posição natural?
Todos os nomes que mencionou são grandes jogadores e se não dava para jogar como médio defensivo, jogava noutra posição qualquer.
No tempo que esteve no Sporting há alguém que o tenha marcado especialmente? Treinadores, dirigentes, funcionários, jogadores, etc.
Guardo boas recordações de muitas pessoas. Os roupeiros, o Altino, o Paulinho e Machado. Os treinadores que tive também me marcaram muito, o mister Carlos Pereira, o mister Vitorino Bastos que já faleceu, o mister Fernando Mendes, o senhor Aurélio Pereira, que nunca trabalhei directamente com ele, mas que esteve sempre presente no futebol juvenil e é uma pessoa muito importante. O mister Carlos Diniz que agora é meu colega na selecção, e muitas outras pessoas que contribuíram para a minha formação enquanto atleta e homem. Todos foram muito importantes na minha vida.
A IDA PARA O NORTE...
Em 1997 foi colocado a treinar à parte.
Foi nessa altura que aconteceu o tal processo no Sporting em que entraram muitas pessoas novas na direcção. Quem representava o futebol profissional eram pessoas que não estavam identificadas com o clube, não conheciam a mística, nem os jogadores que fizeram parte da história do clube, nem a sua dedicação ao emblema, nem a mística, nem a dinâmica. Colocaram tudo em causa, quer o profissionalismo, quer a qualidade, desse modo, foi um processo muito conturbado.
Queriam pô-lo à parte?
Sim, só que eu não aceitei e quis rescindir o contrato.
Antes da proposta do Porto, houve outros clubes interessados?
Existiram algumas propostas de Espanha, mas não se responsabilizavam pela transferência, e eu teria de indemnizar o Sporting porque eu estava a rescindir o contrato daquela forma, sem justa causa. Pouco tempo depois apareceu o Porto, e como é um clube grande, senti que seria o lugar onde teria a estabilidade necessária para poder dar a volta à situação.
Nesse período eram raras as trocas de jogadores entre clubes rivais, a não ser que fossem situações de litígio ou unilaterais. Como se sente ao ser um dos primeiros jogadores a ir para um clube rival do Sporting?
Acho que isso não foi bem assim. (risos). Porque não foi bem uma troca de jogadores. O que se passou é que o Bino estava emprestado ao Marítimo e ainda tinha contrato com o Porto, penso eu. O Rui Jorge acabava contrato, eu também, e tinha de indemnizar o Sporting. O que existiu foi uma comunhão de interesses. Como o Porto queria uns jogadores, e o Sporting outros, ninguém pagou nada e chegou-se a um acordo que satisfez ambas as partes.
Como reagiu à possibilidade de relançar a carreira no Porto, um clube que vinha a dominar o futebol nacional nos últimos anos?
O Porto era um clube mais sólido, mais organizado, e que dava todas as condições para quem quer que fosse trabalhar. Os jogadores não tinham de se preocupar com certas condições, enquanto que no Benfica e no Sporting, os jogadores tinham de se responsabilizar por uma série de factores. O Porto era uma equipa com uma estrutura muito bem montada, organizada e todos tinham as suas missões e tarefas muito bem definidas. A única preocupação era o trabalho. Desse factor é que vem a estabilidade que muito se fala. O sucesso do clube deve-se a isso. Foi uma grande oportunidade para mim, só tenho pena de não ter permanecido mais tempo, mas isso é outra história.
Encontrou muitas diferenças na forma de trabalhar, na cultura, na tradição, entre o Sporting e o Porto?
São dois clubes grandes, com uma grande história. Como referi, no Porto as coisas funcionavam de uma forma mais profissional. E eu estou-me só a reportar à altura, hoje estou completamente fora e não posso avaliar. O Sporting vivia momentos conturbados, antes, durante e depois de cada época. Havia pessoas muito boas, com muita vontade de ajudar, de trabalhar mas quando não há organização no clube, as coisas não funcionam. Actualmente penso que cada um dos três grandes está a anos luz dessa altura, mas para melhor.
Que títulos conquistou com a camisola azul e branca?
Ainda fiz um jogo com o mister António Oliveira no tetra, e depois ganhei o penta campeonato. Para além disso ganhei Taças de Portugal e Supertaças.
Mesmo tendo a concorrência do Paulinho Santos, do Doriva e do Chainho, foi uma peça importante na conquista do Penta?
Sim, mas por trás disso há uma história engraçada. Em Dezembro, estava sem ritmo competitivo, e ponderei ser emprestado. O único clube que se mostrou interessado e me fez uma proposta quase irrecusável foi o Fluminense do Brasil. Cheguei a estar reunido com o director geral do clube, e disse-lhe que ia pensar. No dia seguinte fui à SAD do Porto, para dizer que queria sair e ia firmar o acordo. Entretanto, encontrei o presidente Pinto da Costa no edifício. Ele disse-me para não ir, para ficar e que ainda ia jogar muito. Atendendo ao conselho do Presidente, que é a representação máxima do clube, resolvi arriscar e fiquei mais seis meses. Foi nesse período que voltei a jogar, e as coisas correram muito bem.
O que pensa de Jorge Nuno Pinto da Costa?
Não o conheço muito bem, não convivi intimamente com ele, não o conheço enquanto pessoa. O que posso dizer é que é um líder muito forte e que conduz o seu clube como muito poucos. Com a experiência que adquiriu ao longo dos anos, é muito organizado e orienta o clube em termos de futuro e de ambição. É um líder muito forte.
Recorda-se de algum golo em especial que apontou ao serviço do Porto?
Marquei poucos. No Porto acho que só marquei um, contra o Leiria.
Como foi?
O guarda-redes contrário aliviou a bola, e para sacudir a pressão, chutei para a baliza e a bola entrou.
Foi um lance de sorte?
Não, quer dizer, foi com intenção mas também tive muita sorte à mistura, porque remates daquela forma a resultarem em golo é muito raro. A probabilidade de terem sucesso é mínima.
No Porto teve a possibilidade de jogar com Deco. Qual a sua opinião relativamente a este jogador?
O Deco despertou-me a atenção desde cedo, quando ainda era jogador do Salgueiros. Nessa altura todos os companheiros de profissão e todos os amantes do futebol já reparavam nele. Tinha uma grande qualidade técnica e um talento fora do normal.
Numa conferência de imprensa o Carlos Paredes disse que o melhor trinco do mundo era o Emílio Peixe.
Não. Ele disse que eu era o melhor trinco nacional. O melhor do Mundo era ele. (risos). Fiquei extremamente satisfeito, estava a passar uma fase em que nem eu percebia o que me estava a acontecer enquanto atleta. Sentia que não estava a jogar, não porque não trabalhava bem, não pela falta de empenho, mas por razões que me ultrapassavam completamente e que eram extra-futebol. Eram questões que mais tarde vim a perceber, não as aceitei, mas compreendi porque é que não jogava. Voltando à pergunta, foi uma simpatia do Carlos Paredes e fiquei contente.
Quais é que foram as razões que levaram que o Peixe jogasse cada vez menos no reino do Dragão?
Foram razões que nada tinham a ver com o jogo. São questões que nem vale a pena reavivar porque não fazem parte do futebol.
Acabou por ser emprestado ao Alverca no seu último ano de contrato. Foi um passo atrás na sua carreira?
Não. Eu tinha contrato com o Porto, e como mencionei há pouco, sou um homem de compromissos e queria cumprir o meu vínculo até ao fim. O problema é que eu estava a treinar com a equipa B devido a razões que não quero falar, e um elemento da SAD do Porto perguntou-me se queria ir para o Alverca. Disse-lhe que não, porque as minhas ambições eram experimentar outro tipo de campeonatos. E foi-me aconselhado por esse senhor que ou ia para o Alverca ou ficava a treinar com a equipa B mais seis meses. Tive que aceitar, porque estar mais meio ano nessa situação era tormentoso e eu desejava competir, jogar onde quer que fosse, com a perspectiva de no final da temporada experimentar novas realidades.
No Alverca fez boas exibições. Conseguiu mostrar o verdadeiro futebol do Peixe?
Na equipa B do Porto nunca desisti, mas a partir dessa altura o meu rendimento nunca foi consentâneo com o que tinha feito até ai. Tinha 29 anos, mas sentia que ainda podia mostrar mais. Mas as sucessivas lesões no joelho vieram a ser prejudiciais, nunca consegui apagar essa questão, mas também nunca atirei a toalha ao chão. O problema é que as dores eram contínuas, diárias e a pouco e pouco fui-me apercebendo que era difícil adaptar-me ao contexto. Foi um processo duro.
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Mesmo assim, graças às exibições no Alverca, teve a oportunidade de se juntar ao reduzido lote de jogadores que já representaram os três grandes, ao assinar pelo Benfica.
Eu ainda era jogador do Porto, e mesmo quando ainda não tínhamos ganho o pentacampeonato tive a hipótese de ir para o Benfica a convite do Sr. Manuel Vilarinho. Houve uma reunião entre o Pinto da Costa, o Manuel Vilarinho e o Dias da Cunha, uma espécie de G3 e essa proposta foi feita ao Porto. Nessa altura as relações não eram tão conturbadas e era possível uma troca de jogadores. O meu nome foi falado, mas depois não se concretizou a transferência. Após o meu período no Alverca e depois de ter sido operado ao joelho, aconteceu esse negócio. Fiquei extremamente satisfeito com o interesse do Benfica, aceitei porque sentia que tinha uma oportunidade de voltar a mostrar o meu valor. Infelizmente não consegui, porque as dores eram constantes, e a motivação foi desaparecendo aos poucos.
Mas naquela altura eram frequentes as trocas entre Porto e Benfica, em jogadores em final de contrato?
Não, nessa altura era jogador do Alverca, a transferência nada teve a ver com o Porto. Existiu uma proposta do Benfica, eu aceitei. É verdade que existiram trocas entre Benfica e Porto, mas eu não me posso incluir nesse lote, porque representava o Alverca.
Transferiu-se do Alverca para o Benfica que é sempre uma boa troca. Mas acabou por jogar muito pouco?
Apenas dois jogos, se não estou em erro. Existe um grande orgulho em ter passado por um grande clube como é o Benfica. O que se passou na Luz, é que ao contrário da minha filosofia e princípios, existiram situações com as quais eu não consegui lidar. Estou a referir-me às lesões. O professor Jesualdo Ferreira foi a pessoa que indicou o meu nome. Com ele não consegui treinar um mês seguido. E quando treinava era com infiltrações, com muitas dores e por isso com muitas limitações físicas. Depois veio o mister Camacho, e a situação ainda piorou mais. Acho que nem duas semanas seguidas consegui treinar. Levei muitas infiltrações no joelho. Depois houve a possibilidade de sair para Leiria, na tentativa de dar o último fôlego, mas também já não foi possível.
Houve também um episódio nos treinos do Benfica, onde disseram que o mister Camacho advertiu o Peixe depois de uma entrada mais dura sobre um companheiro. É verdade que disse que não contava mais consigo devido a esse tipo de jogo?
Não. Eu tive uma entrada fora de tempo sobre o Nuno Gomes e o mister Camacho repreendeu-me. Quem olha de fora parece que é muito violento, mas quem está lá dentro percebe, a imprensa aproveitou-se muito disso, e deu grande impacto ao acontecimento. Mas nunca existiu nenhum tipo de problema entre mim e o mister Camacho, e lembro-me que nesse mesmo lance, pedi desculpa ao Nuno, ele aceitou, e no fim do treino o mister conversou comigo. Pediu-me mais contenção, e eu disse que não fazia por mal, era a minha forma de jogar, as minhas características. Tudo ficou resolvido.
Ainda tentou uma época no Leiria, mas não deu certo.
Como referi há pouco, depois de ter saído do Porto da forma como sai, estando seis meses sem competir, senti que tinha algumas dificuldades em termos físicos. Contudo, no aspecto mental sentia que ainda tinha força para continuar. A minha ida para Leiria foi a última oportunidade que encontrei na minha carreira. Depois de um ano muito difícil no Benfica com o mister Jesualdo e com o mister Camacho, em que nunca consegui fazer mais do que um mês de treinos seguidos devido a infiltrações, a lesões musculares, traumáticas e nas articulações, senti que era a última chance. Queria sentir-me na Liga, sentir que tinha jogo ao Domingo, estar em competição, mas nada resultou. Então tive de por termo à carreira, já não havia retorno possível.
Foram as lesões que o fizeram pendurar as botas?
As lesões também ajudaram, mas não foi só. A partir do momento em que aconteceu aquilo ao Miklos Fehér, senti que a minha carreira já não valia a pena. Foi o luto que eu fiz, cada qual tem a sua forma de estar de luto. O Fehér foi meu companheiro no Porto, jantávamos, almoçávamos imensas vezes juntos. No último ano, quando estávamos os dois na equipa B, até entramos juntos num torneio de Squash às escondidas. Queríamos ter um complemento físico porque não competíamos ao fim de semana e entramos no torneio. Depois voltei a reencontra-lo no Benfica, e a sua morte fez-me colocar um ponto final na carreira.
Entrevista realizada no dia 4 de Março 2009 na Sede da Federação Portuguesa de Futebol.
Texto: Hugo Malcato e Miguel Belo.
Imagem: Academia de Talentos.
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Comentários
ele é da minha localidade..
ele é da minha localidade.. foi benfiquista em pequeno. Actualmente não sei o clube dele.
COMO SELECIONADOR TA VISTO
COMO SELECIONADOR TA VISTO QUE E UM FRACASSO CONTINUAMOS A TER MAIS DO MESMO SO OS JOGADORES DOS 3 GRANDES É QUE SAO CHAMADOS Á SELEÇAO OS OUTROS SO SERVEM PARA TAPAR FUROS ASSIM NAO PODE SER NAO PODE CONTINUAR POIS COMO ADEPTO QUE SOU NAO POSSO CONCORDAR COM ISTO EU PAGO PARA VER FUTEBOL SR.PEIXE E GENTE COMO EU QUE O ALIMENTA A SI E A MUITA MAIS GENTE QUE FAZ PARTE DESSA FEDEREÇAO ANDA TUDO A COMER CLARO É O PAIS QUE TEMOS...
NAO SE ESQUEÇA DAQUILO QUE FOI CONVOCAR JOGADORES QUE A SEMANA PASSADA ESTAVAM LESIONADOS RECUPERARAM RAPIDO ISTO É VERGONHOSO E MAIS NA DIGO POIS TUDO ISTO ME METE NOJO....
ABRAÇO FILIPE HENRIQUE
DEVE SER MAIS UM PAPÁ
DEVE SER MAIS UM PAPÁ FRUSTRADO...EH.EH.EH!!!!!
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