Entrevista com Emílio Peixe (2)
A CARREIRA NA SELECÇÂO...
Quando aconteceu a sua primeira chamada à selecção nacional?
Foi no primeiro ano do escalão de Juvenil, na selecção de sub 16. Fui escolhido num treino de captação de 45 jogadores. Foi sensacional, estava apenas há um ano em Lisboa, e fui logo chamado à selecção nacional. Ainda para mais, porque os jogadores eram todos mais velhos que eu, foi muito bom. Nessa altura pensei que tinha atingido um patamar que era impensável para mim. Na minha vida sempre fui muito coerente e pragmático e nunca pensei fazer parte de uma selecção nacional. Quando fui confrontado com isso, fiquei extremamente feliz e mal consegui dormir.
Quem era o treinador dessa selecção?
Era o professor Carlos Queiroz.
Com que idade é que começou a pensar que podia vir a fazer uma carreira no futebol?
Sinceramente, nunca ponderei ser jogador de futebol até ao momento em que fomos Campeões do Mundo de sub 20. Após esse título, começou-se a falar muito em nós, atingimos outra dimensão e mediatização, começou a haver maior pressão. Até essa altura nunca pensei em viver do futebol, ou fazer carreira como futebolista como vim a fazer posteriormente. A minha formação e adolescência no futebol foi sempre muito virada e vocacionada para o trabalho diário, e nunca pensando no que ia fazer a longo prazo. Tudo aconteceu de forma natural.
Que títulos conquistou ao serviço da camadas jovens da selecção nacional?
No ano de 1988 fomos à final do Europeu com a Espanha, mas perdemos no desempate por penaltis. Isto no escalão de sub16. No ano seguinte fomos Campeões da Europa na Dinamarca, ainda no escalão de sub 16. Fomos terceiros classificados no Mundial da Escócia, e ainda conseguimos o segundo lugar no Europeu de sub-18 que se realizou na Hungria. Mais tarde sagrámo-nos Campeões do Mundo de sub-20, e vice campeões da Europa de sub-21.
Nunca participou no Torneio de Toulon?
Podia ter participado, mas na altura já representava a selecção A.
Com jogadores como o João Pinto, o Figo, o Rui Costa, o Peixe conseguiu ser considerado o melhor jogador do Mundial sub 20. Qual era o seu papel na manobra da equipa?
Não sei bem responder a isso. Sem querer ser humilde ou modesto de mais, sempre senti que havia jogadores à minha volta que tinham muito mais qualidade e valor do que eu, e que para eles seria mais fácil fazer as carreiras que todos nós sonhávamos. Enquanto colega de equipa, sempre senti isso, mas esse momento no Campeonato do Mundo foi muito alto porque fui um dos jogadores mais regulares e ao mesmo tempo consegui atrair a atenção de quem atribuía esse troféu. Porque a qualidade do Figo ou do João Pinto já se fazia sentir desde os 14 anos, e desse modo achava que eles tinham mais condições para ganhar.
Na final Portugal derrotou o Brasil. Na equipa canarinha havia algum jogador que lhe enchesse as medidas?
Não. Na altura não havia a possibilidade de vermos filmes de outras equipas. A tecnologia que se usava era outra. Sabíamos que existiam clubes e jogadores muito grandes. Lembro-me do Élber, do Roberto Carlos, que fizeram grandes carreiras mais tarde. Nesse tempo já sabíamos que havia grandes clubes que estavam interessados nesses jogadores, mas a tecnologia não nos permitia saber muito mais. A realidade é que tínhamos uma selecção muito forte, que era capaz de ombrear com qualquer formação e acabamos por provar isso.
Foi eleito o melhor jogador desse Mundial. Alguma vez pensou em ganhar o troféu?
Nunca me passou tal coisa pela cabeça. Estávamos no jantar, para a entrega de prémios, do primeiro lugar, e na altura lembro-me que a minha vontade era sair dali, para poder ir conviver com os meus colegas, aproveitar o dia e prolongá-lo o mais possível. Era essa a pressa que eu tinha. Após o jantar, fizeram alusão ao meu nome, mas como eu não estava com atenção, porque ninguém sabia o que se ia passar, nem liguei. Quando alguém me deu uma palmada nas costas, penso que foi o professor Nelo Vingada, para me dar os parabéns então é que percebi o que estava a acontecer. Levantei-me, dirigi-me até ao representante da UEFA ou da FIFA, vi-o com o troféu na mão e só ai é que vi que tinha sido eleito o melhor jogador do torneio. Quando cheguei ao hotel, liguei logo aos meus país a dar a boa nova, eles ficaram satisfeitíssimos, guardei a taça na mala porque era bastante pesada e fui conviver. Esqueci-me logo que tinha ganho esse troféu, fui aproveitar o dia, porque foi memorável para todos.
O jogador mais experiente daquela equipa era o João Pinto e isso era sempre uma referência para quem estava a avaliar. Ele também já tinha estado presente no outro Mundial, que Portugal ganhou em Riade. Acho que ele era o favorito. Pensei que era impossível que fosse eu o eleito, mas isso aconteceu e fiquei muito feliz.
Quantas vezes foi internacional pela selecção A?
Penso que foram 12 ou 13.
Capitaneou a selecção A nos jogos Olímpicos de Atlanta. Que rescaldo faz desse torneio e como classifica o grupo que jogou nessas Olimpíadas?
Foi a melhor participação de sempre nos Jogos Olímpicos. Era um grupo muito coeso, unido e homogéneo, foi pena não termos conseguido uma medalha, mas temos de fazer uma avaliação pragmática e à posteriori. Defrontamos praticamente as selecções A da Argentina e do Brasil. Apesar de termos sofrido cinco golos no último jogo devido ao desgaste, deixamos uma boa imagem. Vencemos inclusive, uma selecção francesa muito forte que tinha nomes como o Robert Pires, por exemplo.
Lembra-se da última vez que representou a selecção A?
Não, sinceramente não.
MISTER EMÍLIO PEIXE...
Depois resolveu tirar o curso de treinador ou já tinha feito alguma formação antes a esse nível?
Tirei o nível dois quando ainda era atleta do Benfica. O meu interesse pelo treino, e pelo jogo vem a partir do momento em que sou convidado pelo sindicato para participar no estágio de jogadores desempregados. Foi muito enriquecedor para mim poder participar nos estágios, e nessa altura nasceu o meu interesse em aprofundar o treino, a competição e o jogo.
Este bichinho pela carreira de treinador, só aconteceu mesmo depois de pendurar as botas?
Só. Depois de terminar a carreira é que nasceu esta paixão. Ao longo de dois, três anos senti que esta era uma vertente que podia explorar. Comecei a ganhar algum interesse e queria aprofundar as situações estratégicas, técnicas, tácticas. Comecei a pensar: porque não seguir esta carreira, e foi por isso que aceitei o convite do sindicato.
Que professores, ou colegas teve nos cursos de treinador?
Quando tirei o quarto nível encontrei o mister Paulo Bento.
Chegou a estagiar em clubes para melhorar as suas qualificações?
Não, isso são experiências que considero enriquecedoras, mas para mim o mais importante é a actualização permanente dos estudos que se fazem sobre futebol. Não nos podemos acomodar, e como sou membro da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), tenho sempre a hipótese de frequentar e participar em cursos da UEFA, trocar ideias com outros seleccionadores. E isso tem sido fundamental na minha curta carreira como treinador.
Já se falou na experiência que teve no Sindicato. Consegue explicar a sensação que teve ao treinar jogadores desempregados?
Foi óptimo, porque é uma experiência única. Cheguei a planear o treino para 16/17 jogadores e ter apenas quatro, tinha de adaptar, de resolver as coisas na hora. Deu-me outra bagagem. É uma boa aprendizagem. Por vezes tínhamos que esperar por um ou dois jogadores para podermos participar no jogo, porque não tínhamos um número suficiente. Jogávamos no Campeonato Distrital da Associação de Futebol do Algarve. Foi muito gratificante, foi óptimo para a minha experiência como treinador porque conheci uma realidade que desconhecia.
Que conselhos dava àqueles jogadores?
Que estudassem, que se formassem enquanto pessoas porque naquele momento disputar o Campeonato Distrital era apenas por carolice, e não para fazerem carreira no futebol. Naquelas condições, não estando a receber nada, só tinham de se formar academicamente, para terem um curso, um futuro, porque para eles o futebol ia ser sempre aquilo, uma forma de divertimento.
O facto de ter tido uma carreira de altos e baixos fazia com que fosse um exemplo para esses jogadores?
Poderia ser um exemplo enquanto jogador dos vários clubes que passei, incluindo os três grandes. Fiquei com os contactos deles, estabeleci uma boa relação com todos, sinto-me lisonjeado por ter esse grupo de jogadores como amigos. Adorei trabalhar com eles e aprendi muito.
Como surgiu a hipótese de se juntar aos quadros da FPF?
Foi muito simples. Tinha acabado de tirar o quarto nível, estava a começar a minha carreira de treinador, e recebi um telefonema do sr. Presidente Gilberto Madail. Marcámos uma reunião, convidou-me a fazer parte dos quadros da selecção e aceitei de imediato. O facto mais relevante para mim foi a mensagem que o Presidente me deixou. Disse que me tinha convidado devido à minha postura como jogador e como homem. Embora não me tenha conhecido pessoalmente, obteve feedbacks de outras pessoas que trabalharam comigo e achou que era a pessoa certa. Foi uma honra para mim, senti um prazer enorme e mostrei-me logo disponível para aceitar o convite.
Digamos que não se tratou de uma herança fácil, porque no escalão de sub 16, a selecção nacional vinha de várias derrotas.
Isso é irrelevante para mim. O facto de pertencer a uma instituição como a FPF e ser responsável pela selecção de sub 16, implica que a minha principal função seja formar jogadores para a equipa principal nacional e para os grandes clubes quer nacionais, quer mundiais. O objectivo fulcral é formar atletas, mas também homens, de forma a terem sempre um comportamento ajustado, quer desportivamente, quer socialmente. Foram esses os ensinamentos que me foram incutidos, quando representei a selecção. O objectivo nunca foi só a vitória, nem nunca irá ser. A nossa pretensão é dar uma maior identidade nacional e ensinar aos mais jovens a importância que é representar a equipa das quinas. Este é um espaço privilegiado, e só os melhores é que estão cá. Todos os jovens têm de sentir que há uma identidade, uma bandeira, uma paixão, um povo, um hino. Em suma, há uma cultura que têm de aprender até à exaustão, até à última gota de suor. O comportamento desportivo e social é uma parte muito importante neste processo.
Com tanta dispersão dos jogadores pelos clubes de Norte a Sul, pode explicar como é que é feita a observação para depois se elaborar a convocatória?
É simples. Quando os jogadores têm nove/dez anos é feita uma primeira triagem. Nessa altura já estão identificados nos clubes. Depois há a primeira selecção sub 15 que nasce da seguinte forma: em cada associação são convocados os melhores de cada distrito, e ai começa a nossa selecção. Começa-se com um treino de 44/45 jogadores nos sub-15, e a partir desse grupo mais alargado deverá surgir a primeira selecção nacional. A partir dai, os jogadores que são identificados por nós, ou por colaboradores das diversas associações terão oportunidade de ser observados por um técnico nacional e poderão ter a oportunidade de ser convocados. É com base nisso que fazemos as nossas selecções.
Existe algum projecto que gostaria de implementar na FPF a nível de treinos, estágios?
Quando fui convocado a fazer parte da FPF, foi para trabalhar os melhores jogadores. Esse foi um factor que me levou a responder prontamente sim e motivou-me ainda mais para encarar este projecto. Podia fazer-se muitas coisas para melhorar, se pudéssemos treinar na selecção como se treina nos clubes seria óptimo. Como sabemos que é impossível, trabalhamos quando dá, mas sabemos que ainda temos um longo caminho a percorrer. O importante é que estamos todos imbuídos neste projecto e queremos sempre melhorá-lo.
Existem países onde as competições param e os jogadores vão um ou dois meses para estágio com a selecção. Seria uma realidade difícil de implementar em Portugal?
É uma realidade que podia ser assimilada por nós, ou não. Digo isto, porque não temos a garantia concreta que desse modo conseguiríamos formar melhores jogadores, ou que conseguiríamos prepará-los melhor. Nunca temos essa certeza. Considero que é uma realidade que não é atingível no nosso nível. Contudo, há coisas que estão identificadas, que podemos melhorar dentro de pouco tempo e sinto que neste momento estão a dar-se passos importantes, para resolver alguns constrangimentos que existem.
Como reagiu à nomeação de Carlos Queiroz para o cargo de seleccionador nacional?
O professor Carlos Queiroz foi, é e será uma referência para mim. Participou na minha formação enquanto atleta e enquanto homem, e fiquei extremamente feliz com a vinda dele para Portugal e para a selecção A. Só desejo que Portugal tenha toda a sorte do mundo, e que o professor consiga implementar algumas coisas positivas, e melhorar o que acha importante no futebol de formação.
Acha que a aposta deve ser no futuro e não nos resultados imediatos?
Sim, mais uma vez, o futebol português tem de passar por uma aposta no futuro, por uma perspectiva a longo prazo, mas isso são questões que me ultrapassam. Sinto que o professor Carlos Queiroz está preparado para esses desafios, e é uma pessoa claramente capaz de enfrentar as dificuldades do desporto rei no nosso país.
Nas duas últimas décadas Portugal ganhou vários títulos nas camadas jovens. O nosso país é conhecido por ter boas escolas de formação de jogadores, o problema é que desde 2003 que nada ganhamos. Porquê?
Se calhar já está a faltar um titulo, mas sinceramente também não consigo responder. O que eu sei dizer é que ao fim de todos estes anos podemos não ter estado presente numa grande final, mas formamos grandes atletas, patrocinamos a sua evolução enquanto homens, e alguns deles são os melhores do Mundo. A maior parte dos jogadores estão nos grandes Campeonatos Europeus e nesse aspecto penso que a formação do futebol português está a correr bem. No entanto, sou da opinião que é perfeitamente conciliável ganhar e formar bons jogadores. É para isso que trabalhamos diariamente.
Acha que é possível voltar aos grandes triunfos do passado?
Acredito perfeitamente na estrutura da FPF, existem pessoas com capacidade para ajudar a ganhar títulos. Se vamos conseguir, ainda não lhe sei responder, o que é necessário é seguir as linhas orientadores e falar a uma só voz. Esse é o princípio.
OPINIÕES E CURIOSIDADES....
A realidade social de hoje, nada tem que ver com a altura em que o Peixe era jovem. Acha que hoje é mais difícil treinar um jovem jogador?
Não. Penso que o mais complicado de transmitir são os comportamentos sociais, fora do campo. Desportivamente é mais fácil, são atletas que treinam todos os dias, que fazem parte dos melhores clubes, onde existem protocolos, regulamentos. Dentro do campo todos sabem os comportamentos que têm de ter. Socialmente é mais difícil, atendendo às ofertas que há hoje. Há mais facilidade, mais diversidade. Nessa questão é que é mais difícil participar na evolução dos jovens jogadores.
Hoje em dia os jogadores têm mais ilusões de poderem ter uma carreira ao mais alto nível. Concorda?
Eu vou dizer uma coisa, não deveria dizer, e talvez não seja politicamente correcto dizê-lo, mas vou lembrar o que o José Mourinho disse há algum tempo atrás: as maiores dificuldades que os jovens jogadores podem encontrar estão no comportamento dos pais. Eu concordo com isso. Semanalmente observo alguns jogos e noto isso. O problema não está no apoio que os pais dão aos filhos, mas na obsessão que têm pela carreira dos jovens. Acham que os filhos têm que ser como o Cristiano Ronaldo, ou como o Luís Figo. Na minha opinião, o que deviam fazer, era apoiar os miúdos nas suas decisões, neste caso na prática do futebol, mas também mostrar-lhes que é possível conciliar os dois lados: o da formação académica e o do futebol. No meu tempo era mais complicado, mais difícil, havia pouco acompanhamento, não existiam tantos protocolos de desempenho com as escolas. Actualmente se não vamos à escola, ela vem até nós, e penso que os pais têm um papel muito importante e decisivo naquilo que é o desporto nos jovens de hoje.
O facto da maior parte dos jogadores da selecção sub-16, jogarem nas equipas Bês dos clubes e disputarem os Campeonatos Distritais, afecta a sua evolução? Seria melhor jogarem nos Campeonatos Nacionais?
Seria muito melhor. Alguns jogadores de outras equipas que não sejam os três grandes, jogam no Campeonato Nacional pontualmente. Para nós, é preferível competirem no Distrital do que não competirem, mas sente-se também uma menor intensidade nesses Campeonatos, e a selecção ressente-se disso. Contudo, é preciso ultrapassar isso, saber viver com esse problema e transformar as fraquezas em coisas mais positivas na tentativa de melhorar a realidade.
Falou agora das Competições nacionais, qual é a sua opinião sobre as propostas dos Campeonatos que foram vetadas?
Tudo o que seja para melhorar os quadros competitivos, em prol da melhoria do rendimento dos jogadores tem o meu aval. Agora, penso que também devíamos perspectivar uma outra noção de formação. Como falei anteriormente, o objectivo da FPF é formar jogadores para chegarem ao mais alto nível, e tudo o que for feito nesse sentido tem a minha aprovação.
Qual é a sua opinião relativamente à Liga Intercalar?
Na minha opinião o que se terá de corrigir é o calendário da Liga Intercalar. Há estágios das selecções marcados desde o início do ano, e como temos observado essa prova é disputada maioritariamente pelos juniores. E sendo assim, é mais uma sobrecarga para estes jovens jogadores. Penso que os moldes desta competição têm de ser revistos, e têm de ter em conta a programação oficial do ano, porque existem jogos dos Campeonatos, estágios das selecções e agora ainda a Liga Intercalar. O que acontece é que às vezes há um estágio da selecção marcado para uma determinada semana, e a Liga Intercalar aparece simultaneamente. Na minha perspectiva os padrões terão de ser claramente revistos para que ninguém saia prejudicado.
É uma pergunta complicada, mas como é que o Peixe se define enquanto jogador? Há muitos leitores que são mais jovens e não tiveram oportunidade de o ver jogar. Quais eram as suas principais características, os seus pontos fortes e fracos?
É difícil responder. Vou-me definir pelos princípios que tinha na minha vida. Disputava cada lance como se fosse o último, esse era o meu lema. Qualquer lance podia ser o último da minha vida e queria ganhá-lo. Tinha sempre o objectivo de melhorar todos os dias, e essa é a perspectiva que cada jogador deve ter, sempre. Muitos atletas acabam o treino e não param cinco ou dez minutos para fazer uma auto-crítica, ver o que correu menos bem no treino e o que ainda há para melhorar. Por exemplo, se um jogador falha seis passes num treino, no dia seguinte tem de ter a ambição de só falhar três. É assim que se evolui. Até como treinador, estou a aprender e a evoluir todos os dias, porque há sempre novas situações para assimilar. Os jogadores jovens tem de ter como objectivo serem melhores todos os dias, mas para isso é preciso que analisem quais os aspectos que têm para melhorar, para aperfeiçoar e trabalhá-los muito. Só com trabalho, dinâmica e concentração é que se evolui. O passe, a pressão sobre a bola, o uso de processos mais simples são aspectos essenciais. Parecem pormenores mas podem ter grande importância. Se todos os dias fizerem uma auto-análise, com certeza que vão melhorar. É essa a mensagem que transmito aos meus jogadores cada vez que estou com eles.
É mais difícil encontrar talentos agora do que antigamente? Isto porque actualmente existem mais distracções, mais entretenimentos, já não há tanto o futebol de rua. Isso pode retirar alguma criatividade?
Não. Penso que a criatividade também tem que ver com o programa de treinos e com o trabalho que se faz na formação. O que acho é que há maior acessibilidade a outras situações que não existiam na minha altura. Se tivesse uma hora para ir ao cinema ou para ir dar uma volta ao centro comercial já era muito bom. Para jogar um pouco tínhamos de ir até ao salão de jogos. Actualmente existe a Internet que nos permite estar actualizados constantemente e contactar com todas as partes do Mundo. Mas isso não retira criatividade aos jogadores. Se as linhas orientadoras forem objectivas, claras, e se as mensagens passarem para os jogadores não creio que seja mais difícil encontrar talentos do que era antes.
Tal como o Rui Jorge, também disse que só encontrou o futebol como profissão numa altura tardia. Que outros projectos tinha em mente?
Sinceramente não tinha nada em mente. Só queria viver aqueles momentos e prolongá-los porque foram os melhores de toda a minha vida, quer na selecção, quer no Sporting. Como referi, nunca tive a perspectiva a longo prazo de ser jogador. Havia a noção que o tempo ia passando, que íamos conquistando o nosso espaço, que ganhávamos títulos, que a responsabilidade aumentava e que a envolvência à nossa volta era cada vez maior. Depois chegou uma altura em que já era jogador do Sporting, já tinha sido Internacional, já tinha ganho títulos, então podia tirar dividendos do que mais gostava de fazer. Se gostamos daquilo que fazemos, e se ainda tiramos lucro disso, somos as pessoas mais felizes do Mundo.
Quem é o melhor médio defensivo da actualidade?
Não sei. Sinceramente não sei. No campeonato português são todos diferentes, o Miguel Veloso, o Katsouranis, o Rochemback, o Raul Meireles, ou o Yebda. Eu vou confessar uma coisa, mesmo enquanto atleta, quando tinha de identificar algum jogador que me servisse de inspiração ou que fosse o meu ídolo, tinha muita dificuldade. Nunca tive ídolos ou jogadores com os quais me identificasse. Apenas na minha juventude tive alguns momentos e pessoas que marcaram a minha vida. O golo do Carlos Manuel frente à Alemanha marcou-me muito, a partir dessa altura pedia aos meus colegas para me chamarem Carlos Manuel. Anteriormente os golos do Jordão no Euro 84 na França, também foram uma fonte de inspiração. Nessa altura pedia para me chamarem Jordão. Gostava muito de ver o Chalana a jogar. Para concluir, nunca tive assim nenhum ídolo forte.
Dos médios-centro da actualidade, há algum que se pareça com a sua maneira de jogar?
Não. Os tempos são outros, o futebol é outro. Tudo mudou, as características, os jogadores. Por exemplo um jogador não se enquadra na perspectiva de há 15 anos atrás. A competitividade é maior, o rendimento é mais alto, as equipas são cada vez mais equilibradas. Até as selecções são cada vez mais iguais. Mas há jogadores que gosto muito de ver, como por exemplo o Xavi ou o Iniesta do Barcelona. Dá prazer vê-los jogar, são de alto nível, embora nada tenham a ver comigo.
A parte final da sua carreira não foi tão boa. Arrepende-se de ter ido jogar para o Porto?
Não. Eu vou confessar uma coisa, hoje estou numa de confessar (risos). Antes de ir para as Antas eu dizia que ia ser muito difícil adaptar-me. A perspectiva que tinha do Porto era de um clube da região, mais pequeno, que vivia de forma obcecada pelos títulos, de uma forma mais intensa e achava que nunca ia ser jogador do Porto. Depois de lá ter jogado quatro anos, tive a sensação que podia ter nascido ali, que podia ter trabalhado ali, e que podia ter acabado lá a carreira. Tudo isto, porque me identifiquei logo com a filosofia, com a forma de trabalhar, e encontrei uma forma de estar e um relacionamento que era difícil de ter cá em Lisboa. Identifiquei-me muito com eles, e tenho pena de não ter participado mais tempo nos títulos e sucessos do Porto.
Qual foi o melhor jogador com quem já jogou?
Joguei com muitos e bons jogadores. O que chegou mais alto foi o Luís Figo, que chegou a ser considerado o melhor jogador do Mundo, em 2001, salvo erro. Mas ao longo da minha carreira tive a felicidade de actuar ao lado de muitos e bons atletas, quer portugueses, quer estrangeiros.
Quais os treinadores que mais marcaram a sua carreira?
O professor Carlos Queiroz, e o mister Bobby Robson.
Dos treinadores que teve nos clubes com qual se identifica mais? E com quem é que mais evoluiu?
Evolui e aprendi com todos os técnicos, porque tive sempre a mesma postura e respeitei-os sempre. Agora é normal que nos identifiquemos mais com uns do que com outros. Com alguns aprendi o que melhor posso aprofundar e meter em prática, fazendo valer os meus valores e princípios enquanto homem. Com outros aprendi alguns lemas e filosofias que tento aplicar agora como treinador. Todos foram importantes para mim. Mas destaco todos os treinadores que tive na formação do Sporting, porque tiveram um papel preponderante na minha formação enquanto homem e enquanto jogador. Nos seniores destaco o mister Carlos Queiroz e o mister Bobby Robson, como mencionei há pouco.
Fale-nos um pouco desse treinador, que tinha uma cultura diferente dos técnicos portugueses.
Era um apaixonado pelo treino, pela competição, dava ênfase a grandes detalhes do jogo, incutia muita paixão pelo futebol. Ensinava processos simples, situações simples nos treinos, mas era um líder nato, alguém que conseguia motivar e preparar os jogadores para cada jogo da melhor forma e sempre com uma grande vontade de vencer. É também uma referência para mim enquanto treinador.
O mister Carlos Queiroz diz que se arrependeu de realizar um jogo treino entre a selecção de 89 e a de 91. Consta que a selecção de 91 estava a ganhar, e os mais velhos começaram a fazer muitas faltas, e o mister teve de interromper o treino de forma a impedir a continuação da "tareia". Lembra-se desse acontecimento?
Sinceramente não. Nós costumávamos fazer treinos com os mais velhos, só assim é que tive oportunidade de jogar com o Gil, com o Figo e com o Túlipa. Não me lembro desse treino em particular mas é normal existir essa virilidade. Os mais novos tinham menos maturidade mas queriam mostrar serviço. Do outro lado, os mais velhos não queriam perder. É normal existir essa intensidade. Contudo sempre nos respeitámos e admirámos mutuamente.
Como foi a influência dos seus pais na sua carreira quando era mais jovem?
Foi muito importante, se não fossem os meus pais e padrinhos eu não estava a dar esta entrevista à Academia de Talentos há quase duas horas (risos). Todos os fins-de-semana a minha mãe mandava sacos e sacos de comida, pensando que eu passava fome em Lisboa. Então era um autêntico banquete no Centro de Estágio, porque toda a gente comia. O apoio dos pais e dos padrinhos foi fundamental, se não fosse isso teria sido impossível permanecer mais do que cinco dias em Lisboa.
Sentia que os seus pais o apoiavam mesmo que não conseguisse ser jogador? Hoje em dia muitos pais querem que os filhos sejam como o Cristiano Ronaldo como disse anteriormente?
Na minha vida as coisas foram sempre acontecendo naturalmente, e a vontade que a minha mãe tinha, era que eu deixasse o futebol e fosse para perto dela. Via o meu pai poucas vezes, estava muito tempo fora, em Angola, na Guiné, no Canadá, e eu era filho único, então a minha mãe queria que eu estivesse sempre perto dela. Não é fácil para os pais abdicarem da presença dos filhos para apoiarem a sua vontade em ser jogador de futebol e para possibilitarem aqueles momentos únicos que eu vivi. Apesar de me querer perto dela, a minha mãe sempre me apoiou em todas as decisões, nunca houve pressão em investir mundos e fundos na minha carreira. Hoje existem muitos pais que fazem isso, é lógico que cada um faz o que quer, mas isso comigo nunca aconteceu.
Como é que acha que os pais deviam lidar com os filhos. Alguns prejudicam mais do que ajudam. Actualmente até já existem treinadores nos clubes que promovem reuniões para ajudar os pais na forma como lidar com os filhos.
Penso que esse comportamento é bastante positivo, porque os treinadores só os podem ajudar quando estão perto deles. Agora, enquanto líder de um escalão da selecção nacional não adopto esse comportamento. Aqui só entram os jogadores que têm condições para ser os melhores de Portugal, essa é a nossa avaliação. Não temos como preocupação pedir aos pais para ter um comportamento ajustado, pedimos aos jogadores. Porque ou têm um perfil adequado para fazer parte deste grupo, que é um espaço privilegiado, ou então não podem cá estar. Mas considero que é perfeitamente legitimo que os grupos, e que os clubes tenham esse tipo de política. Considero que é importante na tentativa de melhorar o rendimento desportivo e escolar. É bastante produtivo e é de salutar.
Entrevista realizada no dia 4 de Março de 2009 na Sede da Federação Portuguesa de Futebol.
Texto: Hugo Malcato e Miguel Belo.
Imagem: Federação Portuguesa de Futebol.
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Comentários
E COM GRANDE ORGULHO QUE LI
E COM GRANDE ORGULHO QUE LI ESTA ENTREVISTA EMBORA MUITA COISA JA ERA DE MEU CONHECIMENTO,
ESPERO BEM E DOUTRA MANEIRA NAO PODE SER EM RELAÇAO A SELECÇAO SUB16 ESPERO QUE O MISTER EMILIO PEIXE NAO SE DEIXE ENFLUENCIAR POR OS TRES GRANDES QUE NUNCA ESQUEÇA AS RAIZES DELE ESPERO QUE NA PROXIMA CONVOCATORIA REPARTA UM POUCO MAIS AS CHAMADAS QUE ELA NAO SEJAM FEITAS SO POR OS TRES GRANDES ...
ESTIVE A VER OS TREINOS DESTAS ULTIMAS CONVOCATORIAS NO QUAL DEPAREI NA ULTINA ALGUMAS ALTERAÇOES DEVO DIZER GOSTEI DO QUE VI ESPERO REALMENTE QUE NAO SE LEVE PARA O TORNEIO JOGADORES QUE AINDA NAO TENHAM RECUPERADO DAS LESOES
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