Fábio Cardoso (Sport Lisboa e Benfica)

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Ter, 23.09.2008

O que motiva nos jovens a paixão pelo futebol? Será a emoção dos grandes palcos, as perspectivas financeiras, ou apenas o gosto por ter a bola no pé e "inventar" jogadas mirabolantes? A resposta é incerta, mas a verdade é que o desporto-rei rivaliza com a Internet, os jogos de computador e a música como actividade predilecta da maioria dos rapazes de hoje em dia.

Fábio Cardoso não é excepção. Apesar de provir de uma família que assumidamente "não percebe muito de futebol", o jovem central dos Iniciados A (Sub15) do Benfica desde cedo mostrou uma apetência muito especial para este desporto, apetência essa que o levou a ter, até agora, uma carreira recheada de pontos altos. No entanto, essa apetência não sera genética. "Pelo nosso lado o Fábio não tem antecedentes no futebol. O pai jogava no recreio da escola e mal", brinca Teresa Antunes, mãe do jovem central do Benfica.

É também Teresa quem nos explica como começou a carreira do filho: "ele começou com nove anos, um pouco por acaso. O namorado da minha irmã, agora marido, estava ligado ao futebol. Uma vez, organizou um torneio inter-freguesias, aqui na zona de Águeda, convidou o Fábio, e ele foi. Era o mais novinho, tinha nove anos, e os outros tinham todos onze ou doze." A prestação da equipa de Fábio nesse torneio não foi a mais famosa . "Ficaram em penúltimo lugar, porque não tinham equipa, mas ganharam a Taça de fair-play", conta Teresa. No entanto, a prova teve pelo menos um importante benefício - incutir no jovem nortenho o gosto pelo desporto-rei. "Ele começou a gostar de futebol a partir daí", corrobora Teresa, que refere que "a seguir, inscrevemo-lo no clube aqui da terra, o Recreio Desportivo de Águeda, na época 2003/2004. Tinha nove anos."

Médio com veia goleadora

No Recreio de Águeda, Fábio Cardoso passou três anos. À medida que progredia dentro do clube, "passou a ser um elemento fundamental", como explica Teresa Antunes. "Ele jogava a médio centro defensivo, mas marcava muitos golos", prossegue a mãe do jogador. "Na última época no RD Águeda, marcou 70 ou 80 golos...tinha o dobro dos golos do resto da equipa toda!", desenvolve, com uma gargalhada. Estranho, portanto, que um jogador com tal veia goleadora tenha acabado por prosseguir carreira como central. Até porque, como explica Teresa Antunes, "só quando as equipas eram mais fáceis, ou quando ele estava cansado, é que o Fábio jogava atrás, a defesa-central".

A passagem para a defesa deu-se, portanto, apenas com a chegada ao Benfica. Chegada essa, aliás, que também se deu de forma algo fortuita. "Em 2006, o Benfica fez um treino de captação em Taboeira. Não sei ao certo a data, mas foi entre Março e Abril", explica Teresa Antunes. Fábio acabou por ‘aterrar' nesse treino a convite de alguns amigos, que "o desafiaram a ir". "Eles eram cerca de quatro, e o meu marido levou-os lá ao treino", conta. Fábio agradou, e o resto é história: "o senhor Bruno Maruta veio falar com o meu marido, no final, disse que gostava de ver outra vez o Fábio, e ficou acordado levá-lo a Lisboa, ao sintético da Luz".

Fábio, então em transição de Infantil B para Infantil A, foi, agradou e ficou...até hoje. E sempre a central. "Só com o mister Luís Nascimento, nos Infantis A, é que ele fez um ou outro jogo a trinco", conta a mãe do jogador. "Mas tem sido sempre central". No entanto, essa adaptação posicional não foi necessariamente fácil, e Teresa refere que "a alteração deixou o Fábio um pouco desmotivado e abatido, apesar de ele nunca nos ter transmitido isso. No entanto, ultrapassado isso adaptou-se e evoluiu muito como jogador e como pessoa", conclui.

Durante as duas épocas no Benfica, Cardoso teve também algumas distinções no mundo do futebol. "Na selecção de Lisboa, foi a algumas convocatórias na época 2007/2008. Foi convocado para o torneio Inter Associações, onde participou e ganhou, e participou também no Lopes da Silva, onde a Selecção de Lisboa saiu também vencedora.

Foi campeão de Infantis A no SLB, com Luís Nascimento, e de Iniciados B na Divisão de honra na época passada, com Luís Araújo
", enumera Teresa Antunes. Um palmarés de respeito para um jogador que só agora começa uma carreira profissionalizante.

Mudança determinada

Mas a passagem do RD Águeda para o Benfica não trouxe apenas uma mudança física de clube. Também na cabeça de Fábio a preferência passou a ir para outro clube. "Ele era do Sporting, como eu", explica Teresa Antunes, cujo marido é adepto do FC Porto. "Quando ele foi para o Benfica, também tivemos contactos do Sporting, e ele chegou a ir lá treinar", prossegue. "Mas talvez pelas pessoas, que têm valores e que sempre nos trataram bem, ele decidiu ficar no Benfica".

Foi então que se deu a mudança de clube. Peremptória, porque Fábio é uma pessoa "de ideias decididas". "Ele agora diz que é do Benfica, que gosta do Benfica e que está de corpo e alma no clube", diz a mãe do jovem jogador.

Teresa mostra-se também bem impressionada com a maneira como o Benfica se relaciona com as famílias dos seus jogadores. "A relação pais/clube foi-me explicada no inicio e em minha opinião, no nosso caso, tem sido bastante boa. Posso afirmar que o Fábio sempre foi muito bem tratado, sempre foi respeitado e acarinhado pelas pessoa do Benfica, mais de perto pelo Sr. Rodrigo Magalhães e Sr. Bruno Maruta. Além, claro, dos treinadores, de quem tem gostado muito", afirma.

"Traz outro amigo também"

Nesta primeira fase da carreira de Fábio na Luz, o jogador estava ainda a viver com os pais na sua casa, em Águeda, a cerca de 300km de Lisboa. Assim, os encarregados de educação do jogador eram obrigados a empreender, bi-semanalmente, a viagem até Lisboa, para que o filho pudesse comparecer aos treinos. Uma situação de algum sacrifício, mas que os pais de Fábio encararam com um sorriso, tendo a sorte de contar também com uma ajuda muito especial.

"O José Costa [NDR: guarda-redes dos Iniciados A] ia com o Fábio aos treinos, e durante o primeiro ano nós e os pais do José alternávamos. Se à terça iam eles, à quinta íamos nós, etc...", explica Teresa Antunes. Nessas longas viagens, acabou também por se criar um vínculo muito especial entre os dois jovens, que mesmo antes de passarem para o Benfica já se conheciam, vivendo em povoações vizinhas e jogando em clubes ligados entre si. "Eles já jogavam juntos", diz Teresa, "o José é de Oliveira do Bairro, e o Oliveira do Bairro jogava muitas vezes com o Águeda. Já se conheciam os dois", conclui.

As viagens só ajudaram a reforçar ainda mais a amizade, que continuou quando os jovens se mudaram para o Centro de Estágio Caixa Football Campus, no início desta época. Hoje, José Costa e Fábio Cardoso são companheiros de quarto, e ainda grandes amigos, embora, como conta Teresa Antunes, o filho tenha arranjado um novo cúmplice: o médio Guilherme Matos, também oriundo da zona de Aveiro.

"Ele é muito amigo dos dois", explica a mãe do jogador. "Do José, porque estiveram três anos a ir juntos, e jogavam juntos. Mas em termos de feitio, ele e o Guilherme são muito parecidos". Aliás, Teresa refere mesmo que se formaram, nos Iniciados do Benfica, dois pares de amigos inseparáveis: Pedro Torrado e José Costa e Fábio Cardoso e Guilherme Matos. Em relação aos dois últimos, refere que "andam sempre juntos" e "são quase irmãos". E completa, em tom de brincadeira: "agora vou ter que ‘adoptar' mais um, porque eles estão sempre juntos!"

Fábio Cardoso - Lopes da Silva

Futebol versus escola, ou paixão versus dever

No cômputo geral, Teresa Antunes considera que o futebol é, para o filho, uma paixão. "Ele anda sempre com uma bola, às vezes até irrita!", desabafa. "O futebol é a vida dele. A bola está sempre presente!", completa.

No entanto, a mãe do jovem central refere ter algum cuidado para que o futebol não se sobreponha ao mais importante: a educação do filho. A progenitora do jovem benfiquista reconhece que "o futebol o tem prejudicado em termos escolares", por muitas vezes aparecer em primeiro lugar relativamente aos estudos. No entanto, até agora Teresa não precisou de se preocupar: Fábio é um aluno perfeitamente aceitável, transitou para o nono ano e até já sabe o que quer ser, se não for futebolista: advogado. "Talvez por causa de um tio dele que é advogado, e que ele admira muito", explica Teresa Antunes.

No entanto, a mãe do jogador também não pretende destruir ou inibir os sonhos do filho. "Sempre o apoiamos muito, e sempre tentei que ele estivesse consciente da realidade, da experiência que estava a viver, espectacular, mas ao mesmo tempo também da fragilidade dessa situação. Ele está no Benfica, e poucos miúdos têm essa oportunidade, apesar de haver por aí muitos miúdos bons", considera. Por isso mesmo, acredita que o filho "tem que aproveitar essa oportunidade enquanto puder. Depois, logo se vê!"

Fora dos relvados, Fábio Cardoso também se revela uma pessoa "extremamente sociável", a tal ponto que Teresa refere que o filho, por vezes, "se perde um bocadinho na conversa". "Até ao sexto ano, enquanto esteve a jogar aqui em Águeda, o Fábio era o melhor aluno da turma", explica. "Depois, por causa do futebol e das meninas (risos), desceu um bocadinho. Mas também é próprio da idade", considera. "Mas ele, se se esforçar, tem muitas capacidades, até os professores dizem isso", conclui. E deixa bem claro o seu objectivo para a vida do filho: "que seja feliz. Não tem a ver com ser uma grande estrela. Queremos é que ele cresça como pessoa. Se tiver sucesso, óptimo!", refere. E revela-se uma admiradora incondicional do filho. Incondicional e até algo...barulhenta. "No Norte somos mais entusiastas!", explica. "Fazemos mais claque, mais ‘barulho'! Mas acho que também já conseguimos trazer isso para Lisboa", brinca.

Ídolo "fora de posição"

Para um central que começou como médio-defensivo, Fábio Cardoso tem um ídolo muito pouco ligado à sua posição: Cristiano Ronaldo! Tal facto não constitui surpresa - afinal, o jovem extremo do Manchester United reúne consenso entre os mais diversos jogadores, de guarda-redes a pontas-de-lança. Mas no caso de Fábio, a admiração é um pouco mais exacerbada. "Às vezes, eu notava que ele fazia uns gestos iguais aos do Cristiano Ronaldo", conta Teresa Antunes. "No Fábio, não era tanto na parte técnica, era mais na parte intelectual. Tudo o que o Cristiano Ronaldo fizesse, era bem feito, era modelo para ele. Ele admirava-o muito, e muitas vezes os exemplos não eram os melhores...", conclui esta mãe atenta e preocupada.

Mais tarde, no entanto, Fábio descobriu Ricardo Carvalho e Puyol, centrais de classe mundial nos quais modela o seu jogo. No entanto, Ronaldo continua como ídolo máximo do jovem de 14 anos, ainda que as posições dos dois não pudessem estar mais distantes.

Alegre dentro e fora de campo

No clube da Luz, Fábio tem mostrado as suas qualidades. Qualidades essas que Teresa, leiga em matéria de futebol, não sabe explanar com precisão. "Eu sou mãe dele, e gosto de o ver jogar!", diz, rindo. "Todas as mães gostam de ver os filhos jogar!" Ainda assim, diz gostar particularmente "da alegria" que o filho mostra a jogar. "Gosto muito dessa faceta", refere. Em termos de pontos negativos, remete a opinião para um "especialista". "O pai do José Costa, que já foi jogador e treinador, diz que ele precisa de trabalhar mais o pé esquerdo, mas que agora já está melhor", conta.

Fora dos relvados, Fábio é um rapaz como qualquer outro, que adora ir até à praia com os amigos José Costa e Guilherme Matos, ir ao cinema, e estar com os amigos "na Internet e no telemóvel", como diz Teresa Antunes, que considera que por vezes "isso até é um bocadinho de mais". "Mas é próprio da idade!", considera, com a compreensão própria da mãe de um adolescente. Considera ainda que o filho é uma pessoa "muito extrovertida" e que "diz tudo". "Nós não ficamos sem saber nada, porque ele conta tudo!", conclui, em jeito de brincadeira.

Nome: Fábio Rafael Rodrigues Cardoso.
Data de Nascimento: 19/04/1994 (14 anos).
Peso: 1,81m.
Altura: 65kg.
Posição: Defesa-central.
Clube: Sport Lisboa e Benfica.


Texto: Pedro Benoliel.
Imagens: Academia de Talentos.

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