Futebol...e não só!
Futebol...e não só!
Como o futebol pode ser dinamizador de outras modalidades
O futebol é a modalidade desportiva que mais praticantes tem em Portugal. Se a frase anterior pouca contestação traz, o que é certo é que a sua interpretação nos pode alargar o campo de discussão. Será que se trata de uma realidade positiva? Ora, se contra factos não há argumentos, contra realidades podem existir mutações.
Paulo Cunha, jogador do F.C.Porto e da Selecção Nacional de Basquetebol, começou a sua carreira desportiva nas camadas jovens de um clube próximo da sua residência, o Sporting Clube de Coimbrões. A ideia de um futuro defesa central cedo se desvaneceu na onda de uma convicção própria. "Saí do futebol após um desaire pesado. A partir daí senti que se calhar não iria conseguir ter no futebol aquilo que queria. Por isso, decidi experimentar outra modalidade", confessa.
Se a mutação de Paulo Cunha, e de outros grandes atletas do nosso desporto que começaram dentro das quatro linhas, foi motivada por uma tomada de atitude pessoal, é legítimo questionarmo-nos se uma estrutura devidamente preparada pode dar novo rumo a alguns jovens praticantes. "Sem dúvida que o futebol é um desporto muito atractivo, rico ao nível das competências solicitadas. É óbvio que é possível aferir ao nível dessas competências(físicas, psicológicas e técnico-tácticas) algumas particularidades que possam permitir ao jovem ter sucesso noutra modalidade", explica Daniel Duarte, Doutorando em Treino de Alto Rendimento. Todo o processo, salienta, só é possível se o treinador "conhecer bem as modalidades, facilitando muito se for profissional de educação física."
Mais do que ver o desporto como um espaço de alto rendimento, é necessário aquilatar as suas potencialidades sociais, sublinhando-se os benefícios da presente e futura prática regular. Todavia, a motivação do jovem atleta para outras áreas não é fácil, até pelo impacto espectacular que o futebol transporta.
A conversa sensata, o auxílio da psicologia e o aconselhamento dos pais são aspectos fundamentais, mas do Reino Unido chega-nos uma ideia mais criativa. O Governo Inglês, com o intuito de diminuir o fosso entre praticantes de futebol e de outras modalidades e, ao mesmo tempo, alargar a longo prazo o número de medalhas olímpicas, está a usar clubes da Premier League em acções de formação nas mais diversas modalidades. O Tottenham Hotspur foi um dos clubes a aderir à iniciativa e, deste modo, foi ver Luka Modric a jogar ténis de mesa, Sol Campbell a mostrar os seus fortes blocos no voleibol e Michael Dawson a voar para um "passing shot".
Muda-se o cenário, mantêm-se os ídolos. Uma iniciativa curiosa que nos apresenta uma solução válida para uma realidade que, sem melindrar o futebol, promove e potencia outras modalidades. É claro que nesta equação os media terão de dar uma ajuda. Também as autarquias, estando receptivas à infra-estruturação. Mais do que agir, a medida traduz um espírito criativo e, acima de tudo, extremamente rentável em termos de realidade financeira e social.
Em face do panorama português, seria interessante verem-se os chamados "três grandes" a assumirem este desafio. Num mundo global, mais do que os resultados, também a imagem e a disponibilidade social são factores de sucesso. Porque, afinal de contas, o slogan "Mais que um clube", usado pelo Barcelona, pode ser adaptado de forma bem sucedida!
Por último, vem à baila a questão da competitividade . E sobre este ponto recai uma questão curiosa: ser bom ou fazer a diferença? Se optarmos por "sermos bons" temos obrigatoriamente de entrar em confronto com adversários. Neste campo, a conquista de maior competitividade interna em cada uma das modalidades poderá ser uma boa alternativa, se bem que, tal como na economia, o nosso "mercado interno" tenha limites pré-definidos. Uma criação de ligas ibéricas, ou pelo menos algumas taças em concertação com Espanha, poderá representar um incremento de motivação para as camadas jovens, um aumento da disputa desportiva e uma melhoria sadia das performances desportivas e sociais. Todavia, e como é lógico, para cada uma das modalidades o assunto deverá ser estudado, até porque os interesses dos clubes de menor dimensão terão obrigatoriamente de ser salvaguardados. Uma das soluções poderá estar presente na criação de ligas internas no sector amador e semi-profissional, passando-se depois para o patamar ibérico à escala profissional. Desta forma, na minha opinião, estaríamos a fazer a diferença!
Texto: Gil Nunes.
Imagem: www.tottenhamhotspur.com
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