Entrevista com Rui Jorge (2)

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Seg., 30.03.2009

Depois dos títulos no Porto e no Sporting, Rui Jorge terminou a carreira no Belenenses e assumiu o cargo de treinador de juniores. Nesta segunda parte da sua entrevista à Academia de Talentos, Rui Jorge fala-nos da sua passagem pelo Belenenses, o trajecto ao nível das selecções nacionais e a transição de jogador para treinador.



Belenenses

Como é que surgiu a hipótese de vir para o Belenenses?

Convém referir que antes da época terminar no Sporting, tinha falado com o Carlos Freitas, o Director Desportivo, e ele disse que me iria ser apresentada uma proposta. Mas nunca imaginei, e daí ter dito que fiquei algo surpreso, que fosse sair do Sporting. Estava de férias e fui contactado por um jornalista que me disse que o Sporting não ia renovar comigo. Como nunca colocaria nenhum entrave financeiro à minha continuidade no clube, fui apanhado completamente desprevenido quando me disseram que não entrava nas opções técnicas. Depois do choque inicial e como estava seguro da renovação, não tinha precavido o meu futuro, acabei por ficar seis meses a treinar sozinho, sem clube,  pois sabia que ainda não tinha chegado a hora de acabar. Quando recebi um telefonema do Couceiro a falar desta possibilidade e aceitei com muito gosto.

Depois de uma carreira repartida entre Porto e Sporting, chega a um clube popular mas de menores dimensões. Quais foram as principais diferenças que notou?

Os clubes que lutam sistematicamente para o título, como eram os casos do Porto e do Sporting, têm naturalmente objectivos diferentes dos restantes. E por se estar habituado a estar num clube que ganha muitas mais vezes do que aquelas que perde, uma coisa que se estranha, foi isso: não ganhar tantas vezes quanto estava habituado. A culpa não é do clube em si, mas também não é propriamente de ninguém. O plantel tem menos qualidade, há menos capacidade financeira mas a realidade é essa. Foi um sentimento que não me agradou. Mas é um clube, como disseste, popular, todos gostam do Belenenses, mas agora vamos tentar fazer com que o Belenenses ganhe mais vezes, que seja ainda maior.

Sendo um dos mais experientes no plantel, assumiu algum tipo de papel de relevo no balneário?

Não, não. As pessoas valem por aquilo que demonstram e os colegas habituam-se a seguir aqueles que eles acham que estão correctos. Portanto, não há aquilo de tentar mostrar, de tentar ser líder, tentar ser mais experiente. Se as pessoas concordam com aquilo que tentas fazer, se não te impores, é preferível. É natural, por ter jogado onde joguei, que houvessem alguns jogadores, inclusive alguns antigos companheiros meus, que já me conheciam minimamente, sabiam que eu vinha para ajudar e que não me achava superior aos outros. Não pode haver esse tipo de sentimento numa equipa, nunca. E portanto, fui mais um dentro do grupo.

Como descreve a sua estadia no Belém?

Não foi o que eu esperava. Esperava algo diferente. Quando vim para aqui, como jogador, esperava passar aqui muitos anos, a exemplo do que tinha acontecido nos meus clubes anteriores - o que vai em conta com a minha forma de ser - apesar de ter uma idade diferente [32 anos]. Mas sentia-me fisicamente apto para continuar a jogar. Infelizmente, em termos desportivos, as coisas não correram bem para o clube e depois acabámos por tomar essa decisão. Recordo-me que na altura pensávamos que o Belenenses ia para Segunda Divisão e cheguei a falar com o Presidente, tinha mais um ano de contrato e abdiquei dele e surgiu o convite para as camadas jovens a aceitei.



Arbitragens

Um tema complicado e polémico: o que acha das arbitragens em Portugal?


Mais do que a capacidade técnica, pois somos humanos e todos temos a capacidade de errar, o que mais me custa é a prepotência por parte de alguns árbitros que acabam por não saber falar ou até lidar com os jogadores. Felizmente, nem todos são assim. Recordo-me de ter sido expulso num jogo e, apesar de não concordar com a decisão, o árbitro acabou por falar comigo de uma forma correcta e acabei por aceitar a decisão. Também há árbitros que não fazem distinção entre jogadores, tratando-os todos da mesma maneira. Esses árbitros, mesmo que tomem decisões com as quais um jogador não concorda, acabam por ganhar o respeito dos jogadores.

Selecção

Quando é que foi chamado à Selecção pela primeira vez?


Acho que foi num jogo contra os Estados Unidos no Algarve, em Esperanças.

Fez parte do lote dos campeões de Lisboa em 1991?

Não. A minha prioridade era sempre outra (escola).

Qual foi a sensação de participar nos Jogos Olímpicos de Atlanta?

Foi muito boa. O que nós sonhamos como sendo os Jogos Olímpicos, o que nós idealizamos dos Jogos Olímpicos e o que aquilo realmente é, passou-nos um pouco ao lado. Fomos para uma cidade diferente, ou seja não estávamos em Atlanta. Acabámos por não ir nem ao desfile de abertura nem ao de encerramento. Para nós, foi um torneio de futebol, apesar de ter ido com a intenção de viver esse espírito olímpico, a que estamos habituados a ouvir falar desde pequenos e eu fui também nessa expectativa, mas a realidade é que "bebi" mais dos Jogos Olímpicos sempre que os acompanhei em casa do que na minha participação.

Quando é que foi chamado pela primeira vezes à Equipa A e quem era o seleccionador?

Na altura foi o Professor Nelo Vingada, no período de transição, num jogo contra a Noruega, em que empatámos lá. Recordo-me que na altura estava a decorrer a fase final do Campeonato Europeu de Esperanças, em que tinha participado na fase de apuramento, mas acabei por ficar castigado durante dois jogos no jogo contra a Itália e não fiz a fase final.

Houve algum sentimento de revolta na meia final do Euro 2000 com o lance do penalty?

Houve, houve. Independentemente de depois podermos analisar e, eventualmente, que poderá ter cortado a bola com a mão, houve sentimento de revolta. Porque não foi uma decisão imediatamente assinalada pelo árbitro, foi uma decisão por uma chamada do fiscal de linha... E foi muito penalizante...

Portugal teve uma participação atribulada no Mundial da Coreia e Japão. Existiram casos durante o estágio?

Eu não tive conhecimento, sinceramente, de nenhum caso de grande anormalidade. Já o defendi várias vezes, mas tenho uma opinião diferente em relação ao Mundial da Coreia e Japão. Acho que grande parte do que se sucedeu tem a ver com a infelicidade, bem mais do que a má preparação em Macau, com muita humidade. Acho que não fomos felizes, estávamos numa altura em que grande parte dos jogadores estava ao seu melhor nível. Tínhamos o Figo que, apesar de lesionado, era considerado o melhor jogador do Mundo, andava muito próximo do seu melhor. Tínhamos o João Pinto em grande forma, o Capucho, que muitas vezes não era titular, em grande forma, tal como o Pedro Barbosa, o Sérgio Conceição, o Fernando [Couto], o Paulo [Bento], o Rui Costa, todos eles na sua melhor forma.

É verdade que fomos com algumas expectativas para o Mundial, pelo menos falando por mim. De um momento para o outro, estamos a perder contra uma equipa que em termos de nome ou historial não tem muito [os Estados Unidos da América], aos 30 minutos estamos a perder 3-0. De alguma forma, isso abalou-nos um pouco. Mas mesmo assim, fizemos o 3-2 e podíamos ter feito o 3-3 quase a acabar o jogo, mas não conseguimos. Psicologicamente não é fácil. O segundo jogo, contra a Polónia, uma equipa que foi a primeira a conseguir o apuramento para o Mundial, com uma excelente equipa, ganhámos com uma boa exibição e um bom resultado, tendo feito mais do que aquilo que se estaria à espera, foi um bom desempenho. O terceiro jogo, contra a equipa da casa, tivemos uma situação anormal, a jogar logo com 10 quase desde o início do jogo, com a expulsão do João Pinto, contra uma equipa super moralizada, uma boa equipa. Muitas vezes fazemos a associação do desempenho com o historial das equipas adversárias e a verdade é que nesse ano os Estados Unidos da América estavam muito bem preparados e tinham uma excelente equipa, apesar de não terem um bom passado, acabaram por ser injustamente eliminados contra a Alemanha com um erro de arbitragem. Sinceramente, como disse, não vi nada de anormal, nada que não se tivesse passado noutros Campeonatos do Mundo, nada de diferente.

No Euro 2004, foi titular no jogo de abertura contra a Grécia mas depois foi preterido em relação ao Nuno Valente. Ficou triste com a situação?

Fiquei. Primeiro que tudo, porque perdemos o jogo. E eu fui um dos jogadores que saíram da equipa naquela altura e a verdade é que a equipa conseguiu ganhar os jogos que tinha para fazer, o Nuno Valente teve um desempenho excelente ao nível do Campeonato. Não há muito a dizer quando assim é. Tive a minha oportunidade e, por uma questão colectiva, penso eu, num jogo que perdemos, o treinador entendeu fazer alterações e os jogadores que entraram corresponderam e ele manteve-os e conseguimos um bom campeonato. Mais uma vez, é uma daquelas situações em que uma selecção (Grécia) não tem historial, nem grande tradição, mas naquele determinado período tem uma boa equipa e isso é inegável, independentemente de gostarmos ou não do seu estilo de jogo. Mas a verdade é que era uma selecção forte, era uma selecção sólida e coesa e acabaram por vencer o Europeu.



Laterais Esquerdos

Nos últimos anos, a posição de lateral esquerdo na Selecção tem sido ocupada por jogadores adaptados, desde Veloso a Paulo Ferreira. Porque é que acha que isto se verifica?

Mesmo em termos de historial, jogadores com o pé esquerdo, eu sou o jogador com mais internacionalizações, com 45 ou 46. Portanto, não é uma situação muito vulgar, porque há menos esquerdinos, a opção é menor. Logo, é mais fácil conseguir estes nomes. Mas essa é a realidade. Havendo menos esquerdinos, temos de saber aproveitá-los melhor e é uma situação normal essa, só que não é só com os defesas esquerdos. Avança-se no terreno e repara-se que é mais ou menos assim. Há o Futre, o Folha, o Boa Morte, que mesmo sendo convocado regularmente acabou por não ser chamado às principais competições, e poucos mais devem ter sido os esquerdinos a passar pela selecção. É um problema não só de recrutamento.

Existirá uma ausência de formação nessa área?

Existe, existe. Já pensei também bastante sobre isso e cabe-me nesta altura enquanto treinador pensar nessas situações. Quando se tem alguém na formação com qualidade no pé esquerdo a tendência normal é chegá-lo à frente. É a tendência mais natural, colocá-los a jogar mais próximos da baliza, pois são eles que fazem golos. Portanto, mesmo em termos de formação, é natural surgirem mais médios ou extremos esquerdos do que laterais. Porque se temos uma coisa rara, que é um esquerdino, e se ainda por cima é dotado tecnicamente, vamos puxá-lo para a frente no terreno. O efeito de selecção vai fazendo com que os que são mais fracos vão ficando para trás e acabam por cair. E é se calhar por isso, acho eu, que encontramos casos de jogadores sem espaço na frente devido à presença de outros extremos na Selecção  e que são aproveitados a laterais como o César Peixoto e mais recentemente, o Duda...

Quando Paulo Bento assumiu o cargo de treinador do Sporting, ele lança o André Marques no onze titular. Nessa altura, Paulo Bento afirmou que fazia falta ter um jogador experiente como o Rui Jorge para ensinar o André. Como reage a estas palavras?

O Paulo é meu amigo e, como tal, somos suspeitos a falar um do outro. Se bem que nesse caso não tem a ver com a amizade, parece-me algo normal. Mas repara, não me parece muito normal alguém que é o lateral esquerdo mais utilizado e que, por questões técnicas, ser imediatamente preterido. A situação normal é passar de uma altura em que se joga com assiduidade, em que se faz todos os jogos do Campeonato, para uma situação em que vem alguém, que vai ser melhor, naturalmente, e que vai ocupando o teu espaço. Eu não tive essa situação no Sporting mas se tivesse continuado, se calhar, era isso que iria acontecer. Iria aparecer alguém que iria jogar com mais frequência que eu mas onde eu estaria presente para emprestar essa vivência a mais que eu tive. Penso que terá sido nessa perspectiva, e por me conhecer como profissional, que o Paulo terá dito isso. Eu penso assim, mesmo sabendo de jogadores importantíssimos não sendo titulares, jogadores importantíssimos em plantéis pelo exemplo que davam em termos de treino. Recordo-me numa altura no Porto, em que o João Pinto deixou de jogar e nem por isso deixou de ter um papel de relevo dentro do treino. O mesmo passou-se, se calhar, com o André. Sem terem aquela assiduidade como titulares ou como indiscutíveis, não deixaram de ter uma grande preponderância em termos de balneário, em termos do que é o espírito do treino e acho que seria isso a que o Paulo se estava a referir.

Voltando um pouco atrás no tempo, como foi marcar o Ruud Gullit? Existe algum conselho que possa dar a jovens jogadores que se deparem com uma situação similar?

Nos minutos iniciais, ainda mais antes do jogo começar, foi claramente assustador. Depois disso, tive alguma sorte porque o jogo começou a correr bem.. É um daqueles jogos em que há muito a ganhar e é evidente que podia ter ficado, só com um jogo, com uma imagem completamente deteriorada, mas há muito a ganhar. Ele era um jogador que tinha a carreira feita, era um dos melhores no Mundo na altura e eu tinha ali uma oportunidade de me mostrar.

Foi uma sensação boa mas a partir de uma determinada altura, há que concentrar-mo-nos no jogo à nossa frente. Mais do que dar importância aos adversários, há que dar importância aos jogos. Por exemplo, eu sabia que o Figo era um jogador que a determinada altura, mesmo quando me defrontou, jogando ele pelo Real, que era praticamente impossível pará-lo no 1-contra-1. Mas também já disse várias vezes aos meus jogadores que não há que ter medo, não há que ter problema de dizer que não se aguenta no 1-contra-1, de pedir ajuda. Acho que não há problema nenhum nisso, em reconhecer as nossas fraquezas, as nossas incapacidades, é um sinal de inteligência, humildade e um sinal de preocupação para com a equipa. Recordo-me perfeitamente, ainda em relação ao Figo, que se ele tivesse espaço e viesse no 1-contra-1, eu facilmente seria ultrapassado. É um tipo de jogador que é capaz de tudo. Se forem marcados muito em cima, eles são capazes de jogar em profundidade e por aí em diante. No 1-contra-1, não há como travá-los sem a ajuda dos colegas. Basta ver a estratégia defensiva do Liverpool em relação ao Robben, em que várias vezes estavam 2 ou 3 jogadores à volta dele.

Como já disse, nunca tive medo de enfrentar qualquer jogador, apesar de saber que já perdi vários duelos. Até há jogadores que não estão ao nível de um Gullit, de um Beckham, como é o caso do Davide (ndr: jogador da Naval), do Zamorano (ndr: jogador do Trofense), que me criaram várias dificuldades e até é capaz do confronto com eles me ter corrido pior. Isso tudo tem a ver com um momento de inspiração do avançado, com o próprio jogo, com a organização da equipa, tem muito a ver com isso. Um jogador, apesar de rápido, pode não conseguir colocar muitas dificuldades a defesas lentos por não ser muito inteligente a jogar ou algo assim. Marcar um jogador não tem a ver com as suas características físicas. Mas se um jogador for rápido, se pensar bem, se executa bem, é naturalmente um jogador mais forte. E era isso que o Figo tinha na altura. Não era um portento mas tinha grande capacidade de sair para a esquerda e para a direita e fazia a diferença com a bola.

Qual é o melhor lateral esquerdo da actualidade?

Habituei-me a gostar do Paolo Maldini, mesmo jogando actualmente a central, do Roberto Carlos...

Mas esses jogadores têm todos mais de 30 anos...

Hoje em dia, ninguém me enche as medidas. Por vezes, gosto de brincar e dizer que o Roberto Carlos foi prejudicial para todos os defesas esquerdos, pois ele tinha uma capacidade tremenda não só em termos ofensivos como defensivos. Ele punha a bitola a um nível tão elevado que a todos os outros parecia faltar sempre qualquer coisa e na verdade ele é que era um superdotado e foi um super defesa esquerdo. Para mim, tirando o Roberto Carlos, e o Javier Zanetti a defesa direito, não vejo jogadores capazes de fazerem tão bem a posição deles, de atacarem tão bem e de defenderem tão bem como eles. E, no caso do Zanetti, ele é uma coisa incrível há 14 anos! A mim criou-me muitas dificuldades nos Jogos Olímpicos. E era lateral direito mas surgia muitas vezes na minha zona!

Apesar de ter dito que nunca teve interesse em ir para o estrangeiro, certamente que haviam clubes que o fascinavam quando era mais novo. Podia dar exemplos?

Sim, haviam certos clubes que me fascinavam como clube mas não como realidade. Por exemplo, em Espanha o meu clube era o Barcelona, em Inglaterra era o Tottenham...talvez por gostar muito do Lineker... Mas, com o decorrer dos anos, e muito mais agora, a nossa vivência, as nossas amizades, influenciam as nossas escolhas. Quando o Figo estava no Real Madrid, é evidente que em Espanha só queria que o Real vencesse, não me passava sequer pela cabeça o contrário. São relações que criamos e que passam à frente do gosto que temos pelo futebol.

Carreira de treinador

Ao longo da sua carreira enquanto jogador, considerava a hipótese de continuar ligado ao futebol após os seus dias no activo?

Nunca pensei muito nisso. Vivi sempre intensamente a minha carreira. É importante nós, como jogadores, e acho que isso faz parte da nossa obrigação para com a profissão, darmos tudo o que podemos e estarmos 100% concentrados naquilo que estamos a fazer. Eu fui assim. Gosto de olhar para trás e dizer que não houve aquela altura em que se eu tivesse feito mais isto ou aquilo os resultados seriam melhores. Gosto de olhar para trás e ter essa sensação. Não pensava muito no futuro, daí não pensar muito em seguir a carreira de treinador.

Qual foi a primeira sensação que teve quando o convite de treinar os juniores do Belenenses surgiu?

Foi um pouco o deixar algo que sempre me apaixonou, o jogar, e passar para uma fase desconhecida em termos de gosto. Não sabia se ia gostar. Como nunca tinha pensado muito nessa situação, não sabia até que ponto me ia absorver este lado do futebol.

Carlos Alberto Silva, Robson, António Oliveira, Jozic, Inácio, Boloni, Fernando Santos, Peseiro, Couceiro e Jorge Jesus, estes foram alguns dos seus treinadores. São referências para si enquanto treinador?

Todos eles, bem como os meus treinadores de formação, são referência para mim. Uns mais do que outros, logicamente, todos têm coisas que eu retiro, coisas que fui aprendendo ao longo da vida e outros têm coisas que eu jamais farei porque não gostei quando eles o fizeram.

Consegue apontar o treinador que mais o marcou/influenciou?

Nesse aspecto, posso dizer o Inácio porque foi o meu treinador nos juniores durante dois anos. Numa fase muito importante, que é a passagem de júnior para sénior, ele foi o meu treinador no Rio Ave e quando regressei ao Porto, ele também regressou como adjunto e mais tarde apanhei-o novamente no Sporting. Foi o treinador com quem trabalhei mais tempo, daí poder dizer que, em termos de importância para a profissão, foi ele que mais me influenciou. Foi o treinador que, porventura, melhor me conheceu mas, como disse, todos os outros me marcaram e aprendi com todos.

Isolando o Bobby Robson, que memórias tem em particular dele? Era muito diferente a mentalidade de um inglês comparada com a dos portugueses ou dos brasileiros?

Sim, era um pouco diferente. O que mais me recordo dele é de fazermos muitos treinos de finalização, muitos mesmo. Era uma pessoa que também vibrava com o treino, gostava de espectáculo no jogo e acho que se adaptou também um bocado à mentalidade portuguesa sem deixar de lado o espírito do futebol inglês. Recordo-me, por exemplo, que ele incutia a bola de saída do Porto, aquela bola que entra na lateral para o cruzamento e entravam os pontas de lança e os médios, 5 ou 6 jogadores, na área, e que na altura marcámos 2 ou 3 golos nos primeiros 30 segundos do jogo. Ele gostava do jogo, falava muito em duelos individuais dentro do jogo.

Saiu do Sporting no Verão de 2005 e no ano anterior o Paulo Bento era treinador dos juniores do Sporting, no qual foi campeão. Quando veio para o Belenenses, pediu-lhe alguns conselhos de como era essa realidade ou algo semelhante?

Ao contrário de mim, notava-se perfeitamente que o futuro do Paulo iria ficar ligado ao mundo do futebol e muito provavelmente como treinador. Na altura, quando ele passou a treinar os juniores, senti que foi a continuação natural da carreira dele, senti que o Paulo tinha e tem a paixão pelo jogo e que viveu aquele momento muito intensamente, que o absorveu totalmente tal como me absorve a mim agora e fiquei feliz porque senti-o feliz e realizado por estar a fazer uma coisa que ele realmente gostava.

Mas ele foi uma inspiração para si?

Não é fácil quando existe uma relação de amizade entre as pessoas ver-se pela perspectiva da carreira. A minha relação com o Paulo vai muito para além do trabalho dele. Por exemplo, eu aparecia algumas vezes a ver os jogos do Paulo quando ele treinava os juniores do Sporting. Entre pessoas amigas, é uma situação natural. Se ele não fosse treinador, se ele praticasse atletismo, era natural que eu fosse ver algumas provas de atletismo. Tem a ver com a relação que existe entre nós. É evidente que, como ambos estamos ligados à mesma profissão, falamos mais sobre o futebol e talvez se um de nós tivesse outra profissão não falássemos tanto.



Entrevista realizada no dia 3 de Março 2009 no Estádio do Restelo.
Texto: Hugo Malcato e Nuno Franco.
Imagens: Academia de Talentos.

Não perca o final da entrevista a publicar na próxima semana. Rui Jorge fala-nos do desempenho do Belenenses e os seus objectivos enquanto treinador bem como a sua visão sobre futebol de formação.

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