Ricardo Argente (Sport Lisboa e Benfica)

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Qua, 17.09.2008

Recentemente, falámos neste espaço de Pedro Torrado, um dos reforços das camadas jovens do Benfica para a nova época desportiva. Hoje, abordamos um jogador que partilha diversas características com Torrado. Chama-se Ricardo Argente, e tem um percurso de vida muito semelhante ao do jovem médio-centro, com a ressalva de ser mais velho dois anos. No entanto, tal como Torrado, também Argente é oriundo das planícies alentejanas - ainda que tenha nascido em Lisboa - e a sua carreira começa igualmente num pequeno clube da sua zona de residência.

No caso deste atacante, a porta de entrada no mundo do futebol foi o Lusitano de Évora, clube da cidade onde reside desde pequeno. Foi aí que deu os primeiros toques na bola, com a idade de 12 anos. Era então infantil de primeiro ano; agora, é juvenil de segundo. Quatro anos em que representou sempre o mesmo emblema, sendo a passagem para o Benfica o primeiro grande "descolar" da sua carreira desportiva.

A passagem para o Benfica deu-se, aliás, de uma forma extremamente comum. Conforme explica o próprio jogador, "já me andavam a observar há alguns jogos, e depois foram-me ver a Faro, contra o Farense. Falaram logo comigo, e disseram que gostavam que eu fosse conhecer as instalações do Benfica, para passar o mais rápido possível para o clube". Ricardo, um benfiquista ferrenho, teve todo o gosto em satisfazer o pedido dos responsáveis, e ainda na última época a transferência ficava concluída. Argente estreava-se então no Torneio de Mafra, contra "uma equipa da Coreia". No entanto, considera o jogo desta pré-época contra o S. Fernando como o seu "primeiro jogo mesmo como jogador do Benfica", visto que anteriormente se encontrava à experiência.

"Não podia haver melhor"

Chegado ao Benfica, o jovem notou, obviamente, algumas diferenças. "É um futebol muito diferente, é mais divertido jogar aqui!", observa. Mas o que verdadeiramente deixou maravilhado o jovem dianteiro foram as instalações do Caixa Football Campus, no Seixal. "São excelentes! Não podia haver melhor!", entusiasma-se Ricardo Argente, que é residente a tempo inteiro do Centro de Estágio. Segundo conta o jogador, os pais só o vão buscar "aos fins-de-semana", altura em que ruma ao Alentejo para retomar um pouco da sua vida habitual. Depois chega a segunda-feira, e recomeça a rotina de futebolista...

Em relação à reacção dos pais sobre o seu afastamento de casa, o jogador responde com um sorriso que "a minha mãe não acha muita piada! (risos) As mães não gostam muito disso...(risos)". Quanto ao pai, "está a viver no Porto, por isso é um pouco difícil, mas ele decidiu aceitar, porque se era aquilo que eu queria, não me ia ‘cortar as pernas'". Aliás, o pai de Argente será certamente um profundo conhecedor dos meios de futebol de formação, visto que "jogou nos juniores do Benfica há muitos anos", segundo conta o entrevistado.

Ídolos e companheiros

Como acontece com vários dos jovens das camadas de formação, também Argente admite ter tido algum contacto com os seniores, que lhe "falam às vezes". Apesar disso, confessa "ainda não ter recebido" nenhum conselho especial de qualquer dos AA, situação, aliás, partilhada pela grande maioria dos seus colegas das camadas jovens.

Também à semelhança dos seus colegas, Ricardo Argente tem os seus ídolos, jogadores que o inspiram e que tenta imitar. Nas camadas jovens do seu novo clube, e dentro da sua própria equipa, escolhe o capitão Ruben Pinto como um "valor seguro" para os próximos anos. "Muito bom jogador!", exclama, acerca do seu colega dos Juvenis. "E também gosto muito do Tiago Ribeiro. Para mim, são os que mais se destacam", conclui.

Quanto a ídolos internacionais, Cristiano Ronaldo, claro. O jovem extremo português é o jogador que maior consenso reúne entre futebolistas das mais diversas posições, e Ricardo Argente não constitui excepção. "Gosto do Cristiano Ronaldo porque parte como eu gosto, um-para-um." No entanto, também o estilo de jogo do argentino Messi, principal "concorrente" de Ronaldo, agrada a Ricardo Argente. "Gosto muito dos dois estilos de jogo. O Messi é mais reservado com a bola, e depois quando o defesa lha vem tirar, foge-lhe...gosto muito dos dois!", declara.

Em termos de treinadores, reserva um carinho especial por Baltazar Damas, "porque foi o meu primeiro treinador, e é graças a ele que eu estou aqui". Mas a nível internacional a referência é inevitavelmente Mourinho. "Ele é mesmo o ‘special one'!", considera o avançado do Benfica. Já no que toca a clubes de sonho, a resposta é mais surpreendente: "sempre gostei do Benfica..."

"Gosto de ter a bola no pé"

Na altura de se descrever, e apesar da tenra idade, Ricardo Argente não tem papas na língua. "Sou rápido, algo tecnicista, e gosto de ter a bola no pé e partir para o adversário em um-para-um". Talvez pelo estilo de jogo, confessa preferir a posição de extremo-esquerdo, embora também possa alinhar a ponta-de-lança.

No entanto, e apesar da consciência plena das suas capacidades, este jovem está longe de se considerar um jogador perfeito. Quando lhe perguntamos o que pode melhorar, responde: "tudo! Tudo se pode melhorar!" Ainda assim, vê "o jogo de cabeça" como o ponto mais fraco. "Tenho que melhorar muito isso!", diz com um sorriso apologético.

Ainda assim, as qualidades que exibiu foram suficientes para que fosse seleccionado como parte da equipa da AF Évora para o Torneio Lopes da Silva. Era então iniciado de primeiro ano, e já anteriormente havia sido chamado à Selecção Distrital de Infantis. A sua prestação foi suficientemente boa, aliás, para que voltasse a ser convocado para a equipa por alturas do Torneio Manuel Quaresma, e para que fosse chamado a realizar alguns treinos de observação na Selecção Nacional sub-15. Um percurso impressionante dentro das camadas jovens, e que pode valer a Argente alguma atenção no futuro.

No entanto, o jovem não se deixa levar em ilusões desmesuradas. Quando questionado sobre as suas hipóteses nos sub-16, responde que "se continuar a trabalhar, com muito trabalho, consigo".

Percurso académico

Aliás, o trabalho parece ser uma constante na vida de Ricardo Argente, quer dentro, quer fora dos relvados. O dianteiro tem plena consciência do papel importantíssimo que a escola desempenha na vida de qualquer jovem, jogador ou não. Por isso mesmo, escolheu seguir a via das Ciências, frequentando actualmente o 11º ano do curso de Científico-Naturais, com média de 15,4. Apesar da via escolhida, refere "ainda não saber" o que quer seguir. "Depende da média", afirma.

Esta aplicação aos estudos pode ser uma mais-valia para Ricardo Argente no seu percurso dentro do Benfica, visto que esta instituição dá grande importância às notas. Quanto ao facto de os encarnados, à semelhança do Sporting, dispensarem os maus alunos, Ricardo confessa a sua ignorância: "cheguei este ano, não sei!", diz, com o seu cativante sorriso. No entanto, considera ser este um bom aspecto, visto que "o futebol não é algo garantido". "Nós podemos ter uma lesão, e de um dia para outro, não podermos jogar mais à bola, ou já não sermos tão bons como éramos", explica. Por isso mesmo, "a escola é sempre muito importante. Eu, pelo menos, acho assim", declara.

Físico vs Mentalidade

Mas nem só fora dos relvados o trabalho é importante. Ricardo Argente considera que, para um jovem jogador, "é muito importante ter cabeça!" "É preciso ser muito humilde, porque, apesar de eu estar agora no Benfica, sei que não sou o melhor. Há melhores, mas trabalha-se sempre para tentar alcançar o máximo que consigamos de nós. Acho que temos que ser sempre muito humildes, e trabalhar".

No entanto, Ricardo não nega que o aspecto físico também pode ser muito importante para um jogador. O jovem dianteiro sabe que não é especialmente corpulento, o que, admite, "pode ser um problema". "Mas tenta-se sempre ‘esquivar' um bocadinho...", brinca. E completa: "acho que para o jogo, na minha opinião, o físico é importante, mas não é o mais importante". Aliás, referências como Djaló, Quaresma e Cristiano Ronaldo só recentemente "encorparam". Mas Ricardo Argente faz questão de frisar: "o Cristiano Ronaldo ganhou corpo, e é por isso que é o melhor!"

"Se me dispensassem, ficava zangado!"

Apesar de ainda estar a iniciar a sua carreira como futebolista com aspirações a profissional, Ricardo Argente revela desde já metas bem definidas. A primeira, e principal, passa por ficar no seu clube do coração. O dianteiro rejeita as opções normalmente reservadas aos jovens jogadores, nomeadamente o empréstimo a um clube mais pequeno, referindo que, se isso lhe acontecesse, "ficava muito zangado". "Um jogador nunca quer descer", explica, apesar de considerar que ser sénior do Benfica "não pode ser bem considerado ‘estar no topo'". No entanto, e antes que haja mal-entendidos, Argente desenvolve o tópico: "podemos sempre evoluir mais, e o Benfica não é o topo. Há sempre clubes muito melhores". Uma visão objectiva e realista, de um jogador que afirma que "sou do Benfica, gosto muito do Benfica, e o que sempre quis foi jogar no Benfica!" Não uma crítica, portanto, apenas uma constatação objectiva.

Aliás, como já atrás foi dito, para Ricardo Argente tudo se pode conseguir com trabalho. O exemplo foi a saída de Fábio Paim para o Chelsea, que o dianteiro considera ter sido mais do que uma questão de sorte. "Pelo que ouvi dizer - porque nunca o vi a jogar - era um grande jogador". No entanto, o jovem não descura o valor do elemento ‘sorte' no moldar de uma carreira. "No futebol é preciso sorte! O jogador pode ser muito bom, mas tem que ter sorte, porque como eu disse podemos ter uma lesão ou algo assim...", explana.

Mas, sortes à parte, Ricardo Argente considera que qualquer jovem pode ser um grande jogador e chegar prematuramente à equipa A. O exemplo? Alexandre Pato, que "já está lá no topo". Mas será preciso um jogador "especial" para atingir esse tipo de marcas? "Mais ou menos, depende! (risos) Pode acontecer a qualquer um! Se um jogador tiver talento, pode acontecer! É preciso é ter talento. Se tiverem talento e se trabalharem muito..." Aqui, o jovem reforço benfiquista hesita, antes de se semi-retractar: "bem, não é qualquer um que consegue isso! É preciso muita sorte... (risos)"

"Deviam apostar nos jogadores nacionais"

Ao falarmos de oportunidades, vem inevitavelmente ao de cima a questão dos estrangeiros. O que pensa Argente da contratação de jogadores de outros países para as camadas jovens dos clubes? "Acho que deviam jogar mais com as camadas jovens portuguesas. Também não vejo mal nenhum em contratarem jogadores vindos do estrangeiro, mas era melhor, até mesmo para a evolução de Portugal e de jogadores portugueses se pudessem apostar mais nos portugueses".

No entanto, e apesar dos pesares, Argente considera que, futebolisticamente, o nosso "cantinho à beira-mar plantado" tem "crescido muito". "Portugal tem-se vindo a revelar agora, até nas Selecções. A Selecção, agora, tem estado muito bem!", considera, e lança a pergunta: "o que se pode querer mais!? No Mundial 2006 chegaram à meia-final, no Euro-2004 foi à final...do Euro-2000 para cima estiveram sempre bem, se bem que o Mundial 2002 foi ‘para esquecer', foi o pior que aconteceu!"

Em apoio a esta sua convicção, Ricardo Argente conclui a conversa com um conselho para as camadas jovens: "trabalhem! Só com muito trabalho e esforço é que se poderá ser alguém na vida, tanto no futebol como em qualquer outra profissão". Palavras de um rapaz com ambição, maturidade e muitas certezas sobre o que quer na vida.

Nome: Ricardo Argente.
Data de Nascimento: 11/05/1992 (16 anos).
Altura: 1,81m.
Peso: 68kg.
Posição: Extremo-esquerdo/Ponta-de-Lança.
Clube: Sport Lisboa e Benfica.


Texto: Pedro Benoliel.
Imagem: Academia de Talentos.

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